Sinais

"Outros Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Que pavana é essa?

Luís Filipe Castro Mendes, o poeta que não se distrai da misericórdia dos mercados e a quem devemos o magnífico "Outro Ulisses regressa a casa", deixa hoje no Diário de Notícias algumas perguntas, na aparente ressaca de um ciclo. "Quem não sabia a precariedade de que era feita a solução em que apostámos?", pergunta o poeta. "Quem foi suficientemente ingénuo para acreditar?". São perguntas feitas por alguém que acreditou na geringonça, "como se ela fosse a princesa que íamos despertar para uma promessa de felicidade" e que, face ao tempo que viveu, sabe que não assistirá a "muitos mais ciclos de vida".

O poeta, que foi também diplomata e ministro da Cultura, dá à crónica um título desconcertante que nos sobressalta como uma dança dissonante: "Pavana por uma infinita defunta".

Numa primeira abordagem à crónica li o que lá não estava, pavana por uma infanta defunta, como se os meus sentidos tivessem sido capturados pelos acordes que soaram na cabeça de Ravel diante de um certo quadro de Velásquez.

O que primeiro me prendera fora a bela palavra "pavana", a dança mais íntima que ela transporta, uma das belas palavras de que nos fomos perdendo, nossa litania para um amor ausente.

Depois ocorreu-me que no título da excelente crónica de Castro Mendes tivesse pousado a agoirenta gralha. "Acreditámos como crianças numa princesa encantada", escreve ele num dos últimos parágrafos. Mais se escuta a música antiga, a convicção de que tal pavana se instala por uma infanta, por uma geringonça tão breve. Mas é tão funda a desilusão deste homem zangado que pergunta: "Como quereis que compreendamos? Como quereis que aceitemos?". Afinal a palavra pavana é, sim, uma dança, mas é também um ralho, uma sarabanda, uma palavra atordoada. Não por acaso, Castro Mendes termina perguntando: "Que pavana é essa que toca lá fora?"

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