Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Rua de S. Pedro nº1, Póvoa de Varzim

A reportagem da TSF marca hoje o centenário do nascimento de Alexandre Pinheiro Torres, não na sua Amarante natal (onde conviveu com O"Neill), não na Cardiff onde morreu na sequência de um desterro a que foi condenado por ter feito parte do júri que atribuiu a "Luuanda", do angolano Luandino Vieira, então preso no Tarrafal, o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, mas na Póvoa de Varzim onde morou, no número 1 da rua de S. Pedro. Uma placa assinala, doravante, a casa onde viveu aquele que nunca repetiu, que se saiba, aquele lamento do Eça, ali nascido, "Eu sou apenas um pobre homem da Póvoa".

Vários dos seus livros ( e não apenas o sempre citado "Adeus às Virgens" que Agustina confessou ter lido "com delícia") estão banhados pela marema das enseadas e rias que não conseguimos identificar no mapa senão quando nos embrenhamos e percebemos que o autor nos vai enredando na descrição fabulosa de um lugar e de um tempo feitos de ludíbrio e de jogos de máscaras mais funestos, mas também mais risíveis, do que aqueles a que nos confinamos.

Por isso, entre o bacalhau e o bolo-rei destes dias, deambulei pelas páginas de "Vai Alta a Noite", que a Caminho editou em 1997. É um livro que rompe um nevoeiro tão fundo que nem o farol da Burziga (não reconhecível no mapa) nem o de Regufe, ainda erguido no seu vermelho férreo entre a Póvoa e as Caxinas (que o autor grafa com ch) o poderiam atravessar. A capa da edição da Caminho, reproduz um óleo de Ney da Gama Simões Dias, intitulado "O farol de Regufe". Trata-se, sem qualquer dúvida, da magnifica estrutura da arte do ferro que a Câmara da Póvoa de Varzim abriu em Maio deste ano às visitas do público.

Mas o romance faz-nos mergulhar inicialmente num labirinto fantasmático que nenhum mapa confirma. E assim somos levados ao farol de Burziga, à prainha de Lacete, ao enorme pinhal em que se refugia o passaredo que bate asas na ria de Cheraco.

Totonha , a dona da ervanária Cura-Tudo é amante do faroleiro Mafómedes, grande admirador de um almirante espanhol que existiu mesmo. A janela da cozinha de Totonha dá para o mar. Ela acaba de fazer um bolo de natas no qual um pombo, que entrara em voo picado pela casa, mergulha de cabeça. O pombo acaba devorado por outros pombos, "mártir da sua fome", enquanto Totonha liga em aflição para Mafómedes,, a quem pede que traga um garrafão de água da Fonte do Frade. É outro desvio. Há, que me lembre, uma Fonte do Frade, mas em Nisa. Aqui havia uma, junto à casa onde nasceu o Eça, com uns azulejos representando a samaritana dando de beber a Cristo e não se chamava assim.

A acção corre no carnaval de um país com "um primeiro ministro inimigo de danças". Totonha pensa na tirania dos velhos. Em D Constantino, o último senhor do solar dos Pandolfos, passando na "horrorosa rua do Leme".

Velhas aviam fármacos contra as cólicas na farmácia dos Agravados, vizinha da ervanária. Lançam pragas aos seios de Totonha, "sempre erguidos em candelabros de igreja". Florêncio, dono da padaria Dois Mundos, "salta de felicidade, no seu metro e cinquenta e quatro" quando a amante do faroleiro lhe sorri. Por vezes, atreve-se: "A Dona Totonha nunca tem frio. De vestido assim, em Fevereiro". É um grande fresco de um tempo fosco.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de