Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Sem rede

A repórter Glória Lopes, do JN, leva-nos pelo "interior discriminado na cobertura da rede móvel". Vamos sem rede, com a "cobertura" de um estudo da Anacom, a Autoridade Nacional de Telecomunicações.

O estudo avaliou o desempenho dos três principais operadores em 162 municípios. As conclusões obtidas aconselham os decisores a algum recato no uso da palavra "coesão".

Corre por aí uma discussão, nem sequer académica, sobre se existe ou não um interior português. Ide para dentro e tomai alguma vergonha pela persistência de territórios deserdados. O nome que dais à coisa é o que menos importa. Ora a coisa, para o caso, tem nome e números: a cobertura da rede móvel nas aldeias do interior é uma lástima. E sem essa cobertura bem podem os arautos dos novos povoamentos, os estrategas das grandes ousadias tecnológicas, lançar foguetes. Ouvido pela reportagem do JN, o presidente da Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes reclama menos paleio e mais trabalho: Artur Nunes não se conforma enquanto todas as aldeias da região não forem abrangidas pelo pomposamente anunciado Programa Portugal Digital. O autarca de Miranda abre o mapa e o mapa é um livro de reclamações: "Não queremos todas as freguesias, mas sim todas as aldeias do distrito com rede".

A reportagem do JN leva-nos a Izeda. Um morador pergunta: "De que nos serve o telemóvel sem rede?". Adiante, num café, Anabela não consegue pôr-se à janela, no Facebook. "Em muitas aldeias", desabafa, "nem para telefonar dá, quanto mais para andar na internet". Na Rua dos Passarinhos, o padeiro Rui só alcança o trinado, o sinal, de uma operadora, cujas tabelas são as menos apetecíveis. "Temos que nos sujeitar", diz ele."Há muita discriminação. Só somos iguais ao resto do país para pagar impostos".

Não tarda, os cartazes voltarão a prometer: "Connosco, ninguém fica para trás". Vozes cheias de quês hão-de proclamar, uma vez, e outra, a mais vigorosa coesão. Sorumbáticos citadinos deitarão fumo pelas orelhas abjurando a palavra interior. Na Rua dos Passarinhos, em Izeda, o padeiro Rui continuará a levar pazadas de pães ao forno, sem rede.

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