Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Semáforo de rio

Procuremos, de novo, no lixo, a pérola escondida.

Partilhei, ontem, a história, lida no Mirante, de um artesão que transforma o lixo dos amigos em instrumentos musicais.

Hoje, retiro das águas caudalosas do Correio Braziliense o sonho de um vendedor de fruta de Curitiba que, desde 2017, vem recolhendo toneladas de plástico do rio Atuba. O rio passa muito perto da casa de Diego, o ainda jovem vendedor de fruta. Foi naquelas águas que ele aprendeu a nadar e apanhou peixes e deixou correr a infância. Tão pouco tempo passado, o rio é um vazadouro de lixo. Diego decidiu não ficar a assistir da margem à morte do rio pelo qual acumulou gratidão. E há três anos instalou uma eco-barreira que lhe permitiu, num cotovelo de águas turvas, recolher três toneladas de objectos de plástico e outros desperdícios. Ele já viu sacos de lixo vogando nas águas sujas do Atuba, há tempos tirou do rio um fogão de cozinha e um sofá. Mas o grosso da pescaria a que se dedica, três vezes por semana, é a lixeira flutuante reciclável. Ele monta a eco-barreira, recolhe na margem, entrega a uma ONG sua parceira, o lixo é levado para um centro de triagem. Com o lixo moído são feitos brinquedos para crianças que a ONG entrega a Diego. E assim, as crianças de Colombo, naquele vão de rio da grande Curitiba, têm recebido baldes e carrinhos de plástico, os brinquedos que o rio quase morto dá.

Quando não pesca os brinquedos futuros de um rio que foi o seu antigo lugar de brincadeiras, Diego vende fruta junto aos semáforos das esquinas de Curitiba. É outro caudal, o dos rios de margem estreita na cidade grande. Quando oferece papaia, goiaba, jabuticaba, jenipapo, no semáforo furta-cores, fruta verde, fruta madura, ele pensa no rio cor de lama sem sinais de trânsito que façam estancar o lixo.

Imagino que ele acrescenta perguntas à pergunta de um poema de Jorge Sousa Braga sobre os semáforos da Constituição: "Verde amarelo vermelho / Para quando um semáforo / com as cores todas do arco-íris?".

Foi, talvez, junto a um semáforo furta-cores do grande rio do tráfego de Curitiba que ele pensou um semáforo de rio. E lhe chamou eco-barreira e o instalou numa curva vagarosa do Atuba, lá onde o rio passa uma tangente triste à sua infância.

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