Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Silence Radio

Em Março de 2015, Carmen Aristegui, uma grande jornalista mexicana, foi despedida da rádio onde trabalhava. Carmen incomodava demasiados poderes. As perguntas de Carmen afrontavam os matadores de jornalistas. Ela chorou diante das câmaras quando teve de noticiar o assassinato do jornalista Javier Valdez. Mas não engoliu em seco quando se tratou de fazer ao ex-presidente Peña Nieto as perguntas sem adorno num dossier sobre corrupção.

A cineasta mexicana Juliana Fanjul decidiu seguir os passos de Carmen desde o dia em que esta foi despedida. A história de Carmen está num documentário que foi apresentado o ano passado no DocLisboa. Chama-se "Silence Radio". Nunca esquecerei uma passagem em que um jornalista dá testemunho dos perigos que a classe continua a correr todos os dias. Ele diz, com o rosto tomado pelas lágrimas: "Ninguém merece morrer por fazer o seu trabalho".

Este verão, outro destacado jornalista mexicano, Pablo Morrugares, foi assassinado. Pablo, que vinha sofrendo ameaças de morte desde 2015, estava sob protecção federal, no quadro de um programa para jornalistas ameaçados. O guarda-costas que o acompanhava foi também abatido.
Há dias, o jornal El Universal tratava, em editorial, o caso dos jornalistas assassinados no México. Lembrava os 11 tiros disparados contra Arturo Alba Medina, em Ciudad Juarez , o ataque fatal contra Jesus Pinuelas e o modo brutal como tiraram a vida a Israel Vasquez Rangel quando este fazia uma reportagem sobre uma vala comum encontrada em Guanajuato. O editorialista lembrou que, a estes riscos extremos, "há que acrescentar os estigmas lançados do palácio presidencial contra os jornalistas".

Carmen Aristegui, a jornalista de rádio há cinco anos silenciada não deixou de afrontar os mandadores e os matadores. Ela acaba de ser distinguida com o prémio 2020 para a Protecção a Jornalistas. O documentário que Juliana Fanjul realizou seguindo os passos desta mulher eleita há três anos pela revista Fortune uma das cinquenta personalidades mais influentes do mundo pelo trabalho jornalístico, deveria ter sido exibido em Genebra, na cerimónia de entrega do prémio. Mas a pandemia impediu tal possibilidade. Teria sido mais uma oportunidade para que uma frase de Octavio Paz, citada no documentário, fizesse eco no nosso pensamento: "Nos regimes totalitários, a perseguição começa contra indivíduos isolados até que, pouco a pouco, todos são atingidos".

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