Sinais

"Outros Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Somos como animais vadios

Animais vadios. "Somos como animais vadios".

Esta é a insígnia, o cartaz de revolta dos apátridas do Zimbabwe que reclamam o fim da marginalização mais brutal a que centenas de milhares de pessoas vêm sendo submetidas há décadas.

Um relatório da Amnistia Internacional veio ontem chamar a atenção para estes tantos descendentes de trabalhadores migrantes, tantos deles nascidos no Zimbabwe, obrigados a lutar de uma forma desigual pelas condições básicas de sobrevivência e de cidadania. Pelo acesso à educação, pela saúde, pela habitação.

Estão no país desde antes da independência, em Abril de 1980, muitos deles sobreviveram aos massacres de Gukurahundi, durante o regime de Mugabe, e continuam impedidos de reclamar a cidadania porque, simplesmente, não têm como apresentar certidões de óbito dos familiares, sem as quais a nacionalidade lhes é recusada.

Ao ler a notícia lembrei-me do belíssimo título de um admirável livro de poemas de Francisco Duarte Mangas, editado há tempos pela Modo de Ler: "A fome apátrida das aves". São apátridas, as aves, mas disputam em pé de igualdade a sorte dos ventos. Deixai que vos leia uma passagem desse livro tão envolvente, tão próximo do chão onde as nossas pegadas deviam ser irmãs:

"somos árvores, sem nome como os animais bravios. acossadas, árvores acossadas: animais bravios. o fogo persegue-nos desde o início dos tempos. cerca-nos. (...) na natureza, o fogo não sabe, o luto revivifica. da devastação surgirá uma flor. e o rebanho, cativo, irá beber aí a brancura e começar de novo a caminhada no dorso da serra."

Regresso à notícia e ao relatório da Amnistia Internacional e ao grito de revolta dos apátridas do Zimbabwe: "Somos como animais vadios."

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