Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Take away literário em Gouveia

Contrariando os vários rigores deste inverno, a biblioteca municipal Vergílio Ferreira, em Gouveia, acaba de lançar aquilo que designa como "serviço de take away literário", assim permitindo que os seus utilizadores possam continuar a ler de forma gratuita. Porta fechada não quer dizer fechamento e, por isso, a biblioteca Vergílio Ferreira assegura o empréstimo domiciliário de livros que podem ser requisitados por telefone ou por e-mail. A operação é feita com os mesmos cuidados de higienização que mereceria o envio de um queijo da serra, daqueles a que o Torga se refere quando escreve sobre a Beira. Em "Portugal", ele fala da "força polarizadora" da Estrela, antes de perguntar: "Há rios na Beira? Descem da Estrela. Há queijo na Beira? Faz-se na Estrela. Há roupa na Beira? Tece-se na Estrela. Há vento na Beira? Sopra-o a Estrela". O que se tece e teceu na Estrela nos levaria, entretanto, a Ferreira de Castro, a outro ângulo da serra, o de Manteigas e Covilhã, lugares centrais de "A lã e a neve".

Se me escutas em dever de recolhimento nos tantos lugares em redor de Gouveia, não esqueças essa força polarizadora da serra, alarga a tua escolha para que ela abarque o mundo inteiro nos livros que te serão entregues cumprindo regras de distanciamento, na data e hora previamente combinadas.

Na verdade podes ir a Melo folheando a "Conta-Corrente" onde Vergílio Ferreira admite a possibilidade de a aldeia ter sido criação sua. "Neve, desolação do Inverno e o augúrio dos ventos e a presença física e metafísica da montanha que de um extremo da aldeia se vê (...) são entre outros os motivos que se me fixaram largo tempo para saber ser sensível e entender-me a mim próprio".

Na "Estrela Polar", Vergílio vai pelas ruas da Guarda. Observa a janela manuelina que, na rua Direita, o fita com os seus "olhos mortos desde há séculos", demora-se na rua do Inverno, leva-nos à rua da Torre onde "velhas mulheres acendem braseiras" enquanto "uma memória de inverno sobe com o seu fumo até aos beirais dos telhados".

Em "Para Sempre", leva-nos à Guarda, pelo seu nome ficcional, Penalva: "Penalva ficava no alto de um monte. Chego na camioneta com a mala, conheço a casa, é na rua do Marquês, já lá tinha vindo com as minhas tias a combinar. Bato à porta, a senhora Guilhermina espreita a uma janela, é uma cidade quase deserta, imóvel na eternidade".

No antigo solar dos Serpa Pimentel, em Gouveia, os guardadores de livros contrariam os vários rigores deste inverno. Facultam, aos que se lhes dirijam, livros tratados como queijos. Chamam-lhe take away literário. As iguarias são à sua escolha.

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