Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Talvez conversem na terceira margem

Tenho visitado muitos museus nesta Viagem a Portugal. Neste dia em que eles ganham maior montra mediática, escolho o de Resende, um pequeno museu que Saramago não poderia ter visto, se tivesse procurado a terra das cerejas e das cavacas. Nesse final da década não existia ainda o museu que guarda, no edifício que em tempos foi cadeia de Resende, uma ara votiva dedicada a Júpiter, peças de sistemas de moagem romanos, forais manuelinos, a olaria arcaica de mestre Joaquim Alvelos, tanta importante memória reunida sobre o ciclo do pão e do linho, ex-votos, armadilhas de pesca usadas no Douro, cornetas e cartas de arrais, réplicas de rabelos e o tanto de que é feita a vida corrida dos lugares, camadas sucessivas de pó levantadas. Há neste museu que Saramago não poderia ter visitado, uma sala inteiramente dedicada às pontes que Edgar Cardoso projectou para o Douro, de Barca de Alva à Arrábida. Na sala estão os grandes planos das pontes construídas e daquela outra que não uniu outras margens senão as do estirador do génio tão intimamente ligado a Resende. E lá está, magnífica, a máquina fotográfica panorâmica criada pelo mestre.

Mas o que me prendeu, mal entrei na sala dedicada a Edgar Cardoso, foi a frase do grande visionário rasgada na parede em frente: "Em todos os rios há um sítio que foi feito para pôr uma ponte. É preciso encontrá-lo". Não sei se Edgar Cardoso e Saramago alguma vez se encontraram. Sei que esta exposição foi mostrada há uns anos na biblioteca José Saramago, em Leiria.

Já ambos tinham partido para uma incerta margem. Mas, na sala do museu de Resende, aquela frase de Edgar Cardoso ficou a bailar-me no pensamento, enquanto com ela procurava a possibilidade de uma ponte pênsil que se ajustasse ao vão e à flecha dos versos de um poema de Saramago, intitulado "Ponte". O poema está no livro "Provavelmente alegria": (...)"Há sempre um ponto de mira / o mais comum horizonte./ Nunca as pontes lá chegaram/ porque acaba o construtor/ antes que a ponte se entronque/ onde se acaba o transpor".

Teria sido formidável um encontro em que ambos pudessem ter remado suas ideias sobre pontes. Mas os dois trataram de remar suas canoas especiais, talvez em pau de vinhático para aquele lugar impreciso a que Guimarães Rosa chamou, num conto inesquecível, "a terceira margem do rio".

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