Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Três minutos de atenção

Uma mulher da Florida decidiu processar a multinacional Heinz por publicidade enganosa. A mulher reclama cinco milhões de dólares de indemnização porque, ao contrário do que é anunciado na embalagem, o macarrão com queijo leva mais de três minutos e meio a cozinhar.

A empresa considera que estamos face a uma "acção frívola". Os tribunais decidirão. Mas a notícia trouxe-me de volta o impacto de uma curta metragem da brasileira Ana Azevedo intitulada "3 Minutos". O filme, de 1999, esteve em Cannes em 2000 e pode, deve, ser visto na internet. A promoção do filme sublinha que três minutos é o tempo de deixar um recado, de passar o testemunho e correr 4 por 4 em estafetas, de cozinhar um ovo. Nada de macarrão com queijo, mas isso é o menos. O filme demora quase 6 minutos a deixar que a câmara varra uma cozinha onde um televisor transmite, a preto e branco, uma prova de estafeta. Há sobre a bancada da cozinha legumes prontos a cozinhar, alguém liga de uma cabina, o telefone toca na cozinha onde foi deixado um ovo mergulhado em água a ferver. Ouve-se o atendedor de chamadas. É uma voz de mulher. "Nem mesmo eu, diz ela, posso estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Por favor deixe o seu recado depois do sinal". Alguém acciona o mecanismo que nos permite ouvir: "Aqui é Marília. Não sei por que é que eu parei aqui para deixar esse recado. Eu tenho mania de deixar recado. Sempre tive. Também não sei para quê. Sempre ninguém lê. Tu nunca lê. Mas hoje tu vai me ouvir". A câmara mostra dezenas de recados de Marília afixados na porta do frigorífico. Pela janela da cozinha vê-se um relvado, uma baliza. Mas falta ainda metade do filme. Se puder, veja. Marília é Lisa Becker. O filme tem quase o dobro do tempo que o título promete, mas ninguém poderá falar em tempo perdido.

Pelo contrário, o que me fez preencher com esta história os três minutos que me são concedidos a cada manhã foi a importância do filme, a meus olhos muita. Afinal peço apenas, tal como numa antiga canção de Carlos Tê e Rui Veloso, três minutos de atenção. "Não me dês mais do que três minutos de atenção (...) E conta bem o tempo que em pouca água eu fervo".

A canção tem 2'19 e esta crónica não terá muito mais.

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