Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Tropel

"Tropel", este livro de Manuel Jorge Marmelo, encosta-nos à parede do horror quotidiano já ali ao virar da esquina. É um livro rude e desapiedado, um livro zangado com os dias, com o que nem sempre abre telejornais mas fica cosido à nossa consciência do mundo, mesmo se, dela, alijamos a carga. É um livro que não dá ao leitor folga para respirar.

Logo na primeira frase dita por Hirónimo Viktor, pai do narrador: "Se temes os ursos, não entres na floresta". Este adágio de caçador não se refere, como nos é lembrado, a animais e árvores reais.

Hirónimo é o melhor caçador daquela comuna de um impreciso lugar da Europa que ergue, para se defender dos designados otomanos, muros invisíveis mas intransponíveis. Na verdade, Hirónimos e os outros membros do Clube dos Caçadores de Székely, guiados pelo cruel burgomestre vão pelos trilhos da floresta caçar refugiados.

Aquando da primeira batida aos otomanos, o pai do narrador disse-lhe: "Vê como eu mato e faz igual. Acabarás por aprender".

O livro leva-nos, num dilacerante tropel, ao centro da clareira onde a desumanidade faz ponto de mira. Ao fim de algumas páginas iniciais, seguindo os trilhos deixados na própria escrita de Manuel Jorge Marmelo por indizíveis animais nocturnos, parei. Fiquei alguns minutos escutando a batida do coração e dei comigo a pensar se bateria do mesmo modo o coração de um leitor rendido ao discurso do ódio que percorre este tempo, num tropel insano.

O autor explica, em tempo útil, que este lugar (que os mapas nos revelam) só existe na literatura, embora "cada vez mais próximo da soleira da nossa porta".

Por isso, este tropel sacode-nos, confrontando-nos, de um modo implacável, sem margem para meias tintas, com a visão do mundo dos caçadores de homens, os fiéis do burgomestre. Viras a página como se ligasses a televisão e visses a incursão de cinquenta ursos polares esfomeados no arquipélago russo de Nova Zembla, no Ártico. Empurrados pelas alterações climáticas, os ursos passaram a devorar golfinhos, antes de procurarem as lixeiras urbanas, semeando o pânico entre os três mil moradores da ilha. Têm, como a televisão os mostrou e o narrador os descreve, "um aspecto patusco e inofensivo". Mas, observa o narrador, no fôlego seguinte de um tropel insano, "qualquer caçador sabe que não se pode confiar na inocência aparente dos ursos ou dos otomanos".

Está acontecer. Cada vez mais próximo da soleira da nossa porta.

Cada vez mais perto do nosso ódio, do nosso medo, da nossa indiferença.

Ler este livro poderoso até ao fim faz do leitor que sou caçador de mim.

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