Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Um jardim para salvar beija-flores

Ando para aqui, há semanas, com esta notícia a aboborar debaixo do teclado, cá vai ela em carta de papel perfumado, numa asa sim, noutra asa não. Trata a notícia de um projecto académico iniciado na Cidade do México por uma professora de biologia que decidiu criar um jardim para atrair beija-flores. O projecto pegou de estaca e foi replicado. E assim, por entre a selva de betão, surgiram minúsculos recantos com um bebedouro e arbustos que dão um fruto vermelho chamado mirto (que creio serem os mesmos a que noutros lugares chamam murta, murta-cheirosa ou até murta das noivas). Os beija-flores deliciam-se com essas bagas e colhem-nas naquela suspensão de helicóptero a duzentas batidas de asas por segundo.

Esse movimento prodigioso, essa vertigem na aparente imobilidade, deu asas aos pensamentos de Manoel de Barros, o poeta que "queria nascer para passarinho". Ele pergunta, num poema: "Será que fizeram o beija-flor diminuído só para ele voar parado?"

A professora que criou estes jardins na Cidade do México pretendeu, afinal, sensibilizar os alunos para os temas ambientais. As aulas nos jardins de mirto e de brincos de princesa foram atraindo também alunos de desenho e a notícia fala, ainda, em experiências de colibriterapia dirigidas a estudantes com depressão. Tudo começou com 25 arbustos de mirto num recanto da universidade. Quando os beija-flores começaram a chegar, outras faculdades pegaram na ideia e já se pensa num corredor de jardins para colibris e para outras espécies migratórias que cruzam a Cidade do México na viagem para sul. O colibri (outro modo de dizer beija-flor) é um notável polinizador. Poliniza mais de mil espécies, do feijão ao abacaxi. Este é o dia apropriado para dizer que o faz com beijos.

Há um poema de Drummond intitulado "Beijo-flor". Parece ter sido escrito para papel perfumado, numa asa sim, noutra asa não. É assim: "O beijo é flor no canteiro ou desejo na boca?/Tanto beijo nascendo e colhido na calma do jardim/ nenhum beijo beijado (como beijar o beijo?)/ na boca das meninas/ e é lá que eles estão suspensos / invisíveis".

Que o beija-flor colha, neste dia, a sua baga vermelha de mirto. Resistindo à floresta de betão.

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