Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Um minueto para o Zé Mário

A esta hora já se encontraram, talvez na capela palatina de Lucca onde Luigi chegou a ser primeiro violoncelo, talvez em Madrid onde o compositor da dinâmica suave e do estilo galante foi director da orquestra privada da duquesa de Benavente-Osuna.

"O homem voltou", terá pensado Boccherini, quando o viu entrar. Lembrava-se dele, muito menino, abraçado a um aparelho de rádio antigo, escutando um dos seus minuetos. Lembrava-se do menino do Porto que, tal como ele, conhecera o exílio. Lembrava-se de o ouvir, muitos anos passados, explicando numa rádio, o modo como nascera, de um estribilho de dedos de Fausto, na casa de Setúbal, uma certa canção do Zeca. O rapaz do Porto estava lá, nesse dia. E contou, na rádio, a história dessa canção sobre um homem que "deu um passo e tombou". Aquele que, ainda menino, se abraçara a um rádio para escutar o seu minueto, chorando, tecia na rádio um fio de canções. A isso chamavam play-list. Canseiras desta vida. Entretanto, o menino do Porto fez-se homem, ganhou bigode e juntou mapas, palmilhou caminhos ("Quando eu for grande quero ser um bichinho pequenino"). Olhou para o espelho e era avô. ("Quando eu for grande quero ser mais pequeno que uma noz") E assim sussurrou uma carta aos netos. Deu a carta a ler ao do estilo galante. Boccherini disfarçou uma lágrima, lembrando-se talvez de Leopoldo, o pai contrabaixista. Quis mudar de assunto. "E Marta, chegou a casar com dom Gaspar?" Que não, respondeu o caminheiro. Marta não nascera para ser rainha dos pacóvios de aquém e além mar . "E Clementina, que sorte teve Clementina, no fim da zarzuela?", perguntou o que viera de longe, de muito longe. "Como sabe", respondeu o italiano, " havia nessa ópera um português, um tal D. Urbano, pretendente da mão de Clementina e afinal seu irmão".

"Tudo o que for vivente tem uma queixa que o percorre. Não era isso que dizia o pastor de Beja?" "Pastor e poeta", atalhou o recém-chegado. "Dizia mais: quando um dia a vida morre, a morte morre também".

"Esta já não mata ninguém. Mas entra. Deves vir cansado~."

"O que eu andei para aqui chegar, querido mestre", respondeu o do Porto, em voz rouca e grave, pousando a viola junto ao violoncelo do filho dilecto de Haydn. E foi quando o virtuoso Boccherini tocou no violoncelo, para ele, como tantas vezes fizera, um tema do repertório de violino. "Tinha esta viola numa mão, uma flor vermelha noutra mão", escreverá num tempo futuro. Abraçaram-se. Sabiam ambos onde está "a chave escondida do portão".

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