Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Um parágrafo pouco iluminado

No tecto de uma das salas dos seis andares da Villa de Aurora, em Roma, permanece o único mural conhecido de Caravaggio. O palácio vai hoje a leilão, por ordem judicial. O preço base de licitação da residência histórica da família Ludovisi é de 353 milhões de euros. Depois da morte do último proprietário, os herdeiros foram incapazes de manter este palácio onde nasceram dois papas. O governo italiano faz contas enquanto corre uma campanha para que o Estado não deixe escapar este tesouro que Bill Gates quis em tempos comprar.

A notícia sobre o declínio da família Ludovisi vem apimentada com o relato de uma embrulhada fiscal. Num parágrafo breve, há uma referência à habitante solitária do palácio, uma actriz norte-americana, viúva do aristocrata cujo nome já não impressiona os deuses pintados no tecto de uma das salas. A velha actriz ganha, na malha noticiosa deste desfecho de um conto de fadas, uma solidão sem garbo. Ela que tanta tinta fez correr quando, nos anos oitenta, sorriu na capa da Playboy, passeia a sua decadência num parágrafo pouco iluminado. Olhando o tecto da sala para onde Caravaggio desterrou deuses ela repete o Vagabundo, o Deserdado que, num soneto de Antero, apenas encontra "silêncio e escuridão" lá onde buscara " o palácio encantado da Ventura".

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