Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Um repasto frugal

Num dos "25 poemas da triste alegria", Carlos Drummond de Andrade convida um amigo, tomemos que convida o leitor, para a sua casa nova. O poema vai descrevendo as "paredes limpas", a mesa onde escreve e sobre a qual há "um ramo de rosas frescas". Consta que Mário de Andrade fez um reparo mais severo a um dos versos desse poema da fase juvenil do mineiro de Itabira, aquele em que Drummond aponta o banco em que se hão-de sentar, ele e o amigo, ele e o leitor, para um "repasto frugal". Mário de Andrade considerou "horrível" essa expressão paradoxal. Na verdade, o que será um repasto frugal?

Como observa Amílcar Correia, no editorial de hoje no Público, ao classificar como "bom" o acordo de princípio a que os parceiros europeus tinham chegado, António Costa mais não fez do que usar "um eufemismo para desilusão". A "Europa frugal" continua a olhar-nos como incontinentes e permite-se dizer-nos que comamos só as batatas.

E porque não comer o siluro? - pergunta, entretanto, um leitor do jornal, numa das cartas ao director, publicada logo abaixo do editorial. O leitor lembra que a praga "foi trazida do centro da Europa onde serve de alimento". Por cá, observa o leitor Gaspar Martins, o predador que agora infesta as águas do Tejo não faz boa mesa "por ser um peixe muito feio". O leitor recorda que, quando era criança, as peixeiras do Bolhão se queixavam de que ninguém comprava o tamboril devido ao aspecto. "Anos depois", escreve o leitor do Público, "tornou-se difícil encontrar um tamboril nas bancas". O leitor pergunta: "Porque não se fazem pratos com o siluro para que os pescadores o pesquem em vez de pedirem subsídios estatais para o eliminar?".

Ora aí está. Tal como espantou o maioral da frugalidade ao exibir, em Haia, uns sapatos portugueses de sola de cortiça, António Costa poderá impressionar as delegações europeias, num dos banquetes oficiais da próxima presidência portuguesa do Conselho da União, em Janeiro, exibindo em travessa reforçada, com a assinatura de um prestigiado chef, um siluro de cem quilos, com acompanhamento discreto. Assim devolveríamos, às postas, à altiva Europa, o predador que ela deixou escapar para o Tejo. Temos poucos meses para apurar a ementa de um "repasto frugal"

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