Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Uma sidra, com o mar no bolso

Se tiver de entrar em quarentena, lá na casa asturiana, ele há-de anotar a passagem dos dias num caderno de capa negra que sempre o acompanha. Ainda que não possa contemplar o mundo senão através da janela ou pela televisão. Enfim, terá sempre a alternativa de ler romances de amor não precisando para tal do conselho do dentista Rubicundo.

Nem terá, este homem cuja capacidade de assombro resiste a qualquer estirpe de vírus, necessidade do conselho de um certo caracol que descobriu a importância da lentidão. Afinal, foi ele que treinou o caracol nessa arte sem preço, depois de reter da coruja e da tartaruga a capacidade de observação e a memória). Assim lhe não falte a sidra. É que, como confidenciou num Verão de há quase vinte anos, a Miguel Carvalho (que o procurara na casa perto do mar das Astúrias) foi à mesa de uma sidreria que Luis Sepúlveda "soube de que lado estava no mundo".

Importante é que não se quebre a corrente, nem a disponibilidade para o assombro e que ele volte à praia onde José Carlos Vasconcelos espera "com o mar no bolso".

É que, socorro-me de Jaime Nina, um prestigiado infeccionista da Universidade Nova de Lisboa, "é pouco provável" que a Póvoa faça parte de "uma história suja". Em declarações ao JN, o investigador lembrou que Sepúlveda dificilmente foi infectado na Póvoa, "porque em Portugal não há casos diagnosticados". E se os sintomas surgiram no dia 25, "também não será provável que tenha transmitido o vírus a alguém em Portugal".

É um pouco como aquela história (que ele contou a Miguel Carvalho, há quase vinte anos) de não haver vacas loucas no Chile. O escritor estava no Chile quando, tendo Pinochet admitido que era sua a letra da ordem de partida para a Caravana da Morte, diagnosticaram ao ditador uma doença que foi tema de chacota entre a comunidade médica: demência vascular leve. Sepúlveda foi a um restaurante festejar o aniversário do filho. Este, preocupado com a encefalopatia espongiforme bovina que, então, fazia manchetes, perguntou ao empregado: "Aqui não há vacas loucas, não?" E o rapaz respondeu com ironia: "Não, senhor. Aqui as vacas têm demência vascular leve". Assim há-de ser a maleita com que se despediu de um festival literário perto do mar. Leve. E que entretanto não doa. Num outro Corrente d'Escritas, há dois anos, ele assegurou que só escreve quando está bem. "Se me dói alguma coisa, tomo uma aspirina. Não escrevo."

Por mim, não diria que não a uma sidra. Com o mar no bolso.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de