Terra a Terra, Lisboa Capital Verde

Eleita capital verde da Europa, Lisboa partilha a distinção com o país, mostrando locais que tentam, todos os dias, serem mais verdes, mais ecológicos e mais sustentáveis. Concelho a concelho, cidade a cidade, vamos dar a conhecer as maravilhas das paisagens, do património, a gastronomia, as histórias e personagens de todos os cantos do país, numa emissão especial verde conduzida por Miguel Midões e com o apoio técnico de Joaquim Pedro.
Para ouvir na antena da TSF às terças-feira, depois das 15h, e em permanência em TSF.pt e em podcast.

Da "rainha do contrabando" ao marco 51 da fronteira nos montes Laboreiro

Falar da raia e das relações de fronteira em Portugal, sobretudo da raia seca, das zonas do país em que a fronteira não se faz com os rios, como acontece a norte com o Minho, no centro interior com o Tejo ou em alguns pontos do Alentejo com o Guadiana, é falar obrigatoriamente das rotas de contrabando, das fronteiras fechadas. Contudo, há também que falar de todo um potencial que este território tem em termos paisagísticos, de turismo de natureza e acima de tudo das relações comunitárias que se estabelecem com os vizinhos espanhóis que estão mais perto do que o centro de decisão política que é, e que para eles representa, Lisboa.

Neste Terra a Terra, da Lisboa capital verde, vamos a salto percorrer conversas de contrabando em Penha Garcia, no concelho de Idanha a Nova. Depois, tomamos carreiros sinuosos, caminhos de cabras, e subimos até ao Sabugal, onde estas estórias já ganharam livros e colóquios para debater o assunto.

Lá mais acima, onde o Parque da Peneda Gerês se divide entre Portugal e Espanha, já com os pés na Galiza, no Xerês, junto ao marco de fronteira 51 em Castro Laboreiro, havemos de falar de uma fronteira que, para os locais, só existe no mapa. Aliás, para quê fronteiras quando o território natural, cultural e até social é o mesmo.

Penha Garcia é a "rainha do contrabando"

É em Penha Garcia, na esplanada do café alusivo aos templários, cá fora, que falamos com Mário Pissarra, o proprietário. Ele que foi contrabandista e, mais tarde, conhecendo as rotas levou turistas e curiosos ou turistas curiosos a percorrer parte das mesmas rotas, que se faziam a pé ou a cavalo, para contrabandear azeite, café, bacalhau ou como podemos ouvir no áudio do programa, lingerie: roupa interior de senhora.

Penha Garcia era "a rainha do contrabando" durante o período do Estado Novo, em que faltavam em Portugal, ou eram tremendamente mais caros, ou "mais feios" como nos disse Mário Pissara, alguns produtos. "Contrabandeei muita roupa interior de senhora e eram boas de trazer porque numa bolsa trazia dezenas e dezenas delas. Cá em Portugal, as fábricas que as faziam eram todas muito negras e muito feiras. Em Castelo Branco tinha lá os meus clientes", conta.

Neste programa pode ouvir as várias histórias de Mário, mas também de outros que foram também contrabandistas e que deixaram um património imaterial no concelho de Idanha a Nova. Teremos ainda oportunidade de ouvir Mário chamar Manuel de "galafaio" ou até mesmo o cavalo, que muito se usava nas rotas do contrabando, como uma "pileca". A própria linguagem na zona raiana é diferente, há um dialeto próprio deste território, que "bebe" do espanhol e do português.

Agora que voltaram a viver a realidade das fronteiras fechadas, não foi preciso voltar ao contrabando, mas quebrou-se o intercâmbio cultural. O relacionamento que existe tão próximo com os Espanhóis, que estão logo ali do outro lado da fronteira, estando as fronteiras fechadas foi impossibilitado e sentido, muito, no comércio local.

Era um contrabando de subsistência, "de lá para cá e de cá para lá"

Mais acima, no concelho de Sabugal, há um mês, a 23 de abril, foi apresentado o livro "Contrabando e emigração numa aldeia raiana - Fóios", que é da autoria de Alberto Trindade Martinho e José Manuel Nunes Campos e que mostra a riqueza histórica desde fenómeno social também neste concelho beirão. No entanto, conversa neste Terra a Terra foi com o antropólogo Norberto Oliveira Manço. Trouxe-nos como oferta o livro "Maria Mim", de Nuno de Montemor, que retrata o "fechar de olhos" de quem fiscalizava e a paixão que despertou entre um guarda fiscal e uma contrabandista. Uma história que se passa na aldeia de Quadrazais, no concelho raiano de Sabugal.

"Convivia-se na mesma comunidade e havia uma certa cumplicidade entre as entidades fiscalizadoras e os próprios contrabandistas", explica o antropólogo.

O que é que se contrabandeava, "de lá para cá e de cá para lá", nestas rotas do Sabugal, "era sempre em função do preço", mas sobretudo café, azeite ou algumas peças de vestuário. "Era um contrabando de subsistência", refere.

Estabelecidas que estavam as rotas do contrabando, também eram aproveitadas para a emigração ilegal, "facilitava-se a passagem das pessoas para o outro lado da fronteira, sobretudo em direção a França".

Norberto Oliveira Manço conta que chegaram a existir mortes nestes caminhos, "as coisas nem sempre correram bem e essas memórias vão sendo guardadas na memória coletivas destas gentes, mas também há momentos de humor e de boa disposição".

O facto de nos dizer que se faziam a pé ou a cavalo dá para presumir como seriam estes trilhos, "caminhos duros e difíceis, que implicava atravessar riachos e ribeiros, mas quando era feito a cavalo envolvia muitos dividendos na comunidade: era para o dono do cavalo, o cavaleiro...".

A raia sempre foi "espaço de oportunidade" na comunidade "arraiana" de Castro Laboreiro

A fronteira é física e não cultural - é o que sente Américo Rodrigues, professor e membro do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro, que nos levou até junto ao marco 51 da fronteira entre Portugal e Espanha, em Castro Laboreiro, no concelho de Melgaço. Fala com enorme paixão da terra que o viu nascer, da juventude ligada ao contrabando naquela que pode ser uma das regiões mais duras de Portugal: pelo isolamento que representa(va), pelos invernos frios, pela distância grande a que fica(va) do centro de decisão política da capital.

Pelo caminho até ao marco, vamos parando para nos mostrar as invernias, casas em aldeias serranas um pouco mais baixas, para onde a população se deslocava em massa para passar os longos meses de inverno. Os meses mais quentes, ou menos frios, eram passados depois nas aldeias mais perto da vila de Castro Laboreiro e com localizações mais altas e mais agrestes. Também nos chama a atenção para os caminhos, para as rotas, as pontes antigas e os marcos que vão "pintando" aqui e ali a paisagem e mostrando onde começa Espanha e termina Portugal.

Afastamos as giestas para subirmos ao marco 51 do lado espanhol, com os pés no Xerez, Américo Rodrigues diz-nos que "aqui somos todos os mesmos, aqui na raia ainda somos mais, porque aqui havia redes de famílias, que se conseguiam com o contrabando, mas também de outros movimentos sociais ao longo do tempo. Em momentos de aperto, sempre houve aqui grande solidariedade".

Castro Laboreiro tem do marco 2 ao marco 53, para definir a raia seca, "que sempre foi uma janela de oportunidade e um espaço de desafios, por causa do contrabando, da emigração e dos refugiados. Quando de um lado estava feio e do outro nem tanto, estas relações ajudavam as pessoas a resistir neste espaço agreste", acrescenta.

Sobretudo numa localidade, que está acima dos mil metros de altitude, que vivia na pobreza, "pobre, muito pobre", onde a raia significou sempre "um espaço de sobrevivência e de oportunidade".

Só os marcos dispersos é que lá vão marcando o território. Cravadas na pedra, duas letras: o P de Portugal e o E de Espanha indicam onde começa um e termina o outro, mas não há pedra que pise as trocas comunitárias entre povos que se consideram todos iguais.

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