Terra a Terra, Lisboa Capital Verde

Eleita capital verde da Europa, Lisboa partilha a distinção com o país, mostrando locais que tentam, todos os dias, serem mais verdes, mais ecológicos e mais sustentáveis. Concelho a concelho, cidade a cidade, vamos dar a conhecer as maravilhas das paisagens, do património, a gastronomia, as histórias e personagens de todos os cantos do país, numa emissão especial verde conduzida por Miguel Midões e com o apoio técnico de Joaquim Pedro.
Para ouvir na antena da TSF às terças-feira, depois das 15h, e em permanência em TSF.pt e em podcast.

"Deserto verde" do eucalipto e projeto para transformar território que renasce das cinzas dos grandes incêndios de 2017

Assim que deixamos a A13 e viramos para o IC8 em direção a Figueiró dos Vinhos é inevitável recordar o que vimos acontecer em junho de 2017. Somos assaltados por memórias várias, na sua grande parte cinzentas e angustiantes.

Estamos a entrar no território que se viu devastado por grandes incêndios, difíceis de esquecer. Aliás, pelo caminho, é ainda visível na paisagem os efeitos destes incêndios que ocorrem, faz em junho, quatro anos. Nesta edição do Terra a Terra Especial, da Lisboa Capital Verde Europeia, falamos do papel do ordenamento do território na prevenção dos incêndios rurais, mas também de um plano, ou melhor, de uma investigação do Instituto Superior de Agronomia (ISA), da Universidade de Lisboa. Chama-se Scapefire e propõe uma mudança do ordenamento no espaço rural, que vai ser divulgado, e pode ser validado, pelos três concelhos mais afetados por um dos maiores incêndios de que há memória em Portugal: Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande.

Para debatermos o ordenamento do território, sentámos à mesma mesa Manuela Raposo de Magalhães, professora aposentada do ISA, Arquiteta Paisagista, o co-coordenadora do projeto de investigação que já referimos, e também Paulo Pimenta de Castro, coautor do livro "Portugal em Chamas", Silvicultor e presidente da Acréscimo, a Associação de Promoção ao Investimento Florestal.

Como poderá ouvir no áudio do programa, estes dois responsáveis estão praticamente em uníssono em todas as matérias. Concordam que o eucalipto é uma árvore altamente combustível e que "as espécies utilizadas e a sua organização no território fazem toda a diferença, até porque as espécies não ardem todas da mesma maneira, ao contrário daquilo que se diz por aí", refere a investigadora. A investigação confirma isso mesmo, "a espécie que mais arde é o pinheiro bravo e logo a seguir o eucalipto, e as que menos ardem são as espécies autóctones e folhosas, como o carvalho e o castanheiro", reitera Manuela Raposo de Magalhães.

O Scapefire é financiado pela FCT e quer aplicar um conceito que tem vindo a ser desenvolvido e que parte dos pressupostos que "contrariam aquilo que está na opinião pública dominante". Os investigadores consideram que a política da privatização dos baldios, ampliada pelo Estado Novo, que instituiu a "unidade de cultura", fez com que o tamanho diminuto das propriedades fizesse com que estas deixassem de ter rentabilidade económica. "Se o pinheiro bravo leva 50 anos a crescer, o eucalipto demora nove. Por isso, as pessoas habituaram-se à ideia de que a terra é uma espécie de dinheiro que está no banco e a render", acrescenta.

Ao investirmos, desde a década de 60, na cobertura do país com eucalipto, estamos a esvaziar a biodiversidade e a criar barris de pólvora. "Cria um barril de pólvora e é isso que a maior parte das pessoas não entende", acrescenta. "E na questão do eucalipto nem sequer são os proprietários que ganham a maior fatia, pois há os intermediários e a indústria. E, é evidente que a pressão da indústria em ter matéria prima faz com que se esteja a produzir para eles e não para a diversidade do território", o que conduz a um deserto verde em alguns pontos do país, como é disso exemplo o Pinhal Interior.

A ideia deste projeto desenvolvido pelo ISA é envolver os vários municípios, pois um município sozinho não consegue evitar catástrofes como aquelas que se observaram em 2017. "Estamos no topo da área ardida da União Europeia, nos últimos anos. A razão está no mealheiro que se vê nisto, porque, na maior parte das vezes, o proprietário nem sequer está perto da sua produção", diz Paulo Pimenta de Castro.

"Este tipo de modelo económico tem de ser alterado" e para isso preciso do poder local. "Não haverá ninguém mais interessado do que os autarcas para fazer esta alteração, mas tem de haver uma negociação entre conjuntos de municípios".

Ambos os investigadores explicam no programa, em áudio, o que pretendem implementar no território este projeto do ISA. Aqui, em resumo, salienta-se que o Scapefire pretende a criação de linhas de vazios, de áreas de agricultura e de pastagens e um regresso gradual à floresta autóctone.

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