Terra a Terra, Lisboa Capital Verde

Eleita capital verde da Europa, Lisboa partilha a distinção com o país, mostrando locais que tentam, todos os dias, serem mais verdes, mais ecológicos e mais sustentáveis. Concelho a concelho, cidade a cidade, vamos dar a conhecer as maravilhas das paisagens, do património, a gastronomia, as histórias e personagens de todos os cantos do país, numa emissão especial verde conduzida por Miguel Midões e com o apoio técnico de Joaquim Pedro.
Para ouvir na antena da TSF às terças-feira, depois das 15h, e em permanência em TSF.pt e em podcast.

Dos judeus em Vilar Formoso aos refugiados sírios e sudaneses é um desafio para Portugal e para as comunidades locais

Lisboa, que é a maior porta de entrada em Portugal, foi eleita em 2020 a capital verde da Europa, mas quer partilhar com o resto do país a distinção.

Já durante a Guerra Civil Espanhola, a fronteira de Vilar Formoso, agora nomeada de fronteira da paz, serviu de passagem para quem fugia da guerra, mas também foi passagem de quem, a salto, fugia das condições pesadas da ditadura ou da chamada para a Guerra do Ultramar. No final dos anos 30 e inícios dos anos 40, cerca de 10 mil judeus, fugidos da perseguição nazi e de um regime que ocupava a Europa central, chegaram a Vilar Formoso, de várias maneiras, mas maioritariamente de comboio.

"Chegar a Vilar Formoso era, de facto, um alívio. Era a porta de entrada para um sítio mais calmo, porque, em Espanha, eles continuavam a ver soldados fardados e a figura do Hitler em documentos oficiais", explica Margarida Ramalho, responsável pela investigação, que deu lugar à criação do Museu Vilar Formoso - Fronteira da Paz.

O Museu foi pensado pela arquiteta Luísa Pacheco Marques para que quem visita a exposição se sinta mais envolvido com a temática. "Tentou sempre dar uma forma simbólica a todos os espaços. Daí que comece por um cubo, que se transforma num hexágono, que se transforma na estrela de David. O primeiro corredor é muito apertado e de onde as pessoas têm vontade de se ir embora, porque é o momento em que contamos as razões porque as pessoas tiveram de fugir. Depois, entram num labirinto, há becos sem saída. Até que se chega a Portugal, uma zona mais ampla, mais alargada, com portas e janelas para o exterior, uma zona mais arredondada com a forma de um abraço", esclarece Margarida Ramalho.

Vilar Formoso acolheu cerca de 10 mil refugiados judeus

O acolhimento dos portugueses, na "esmagadora maioria, foi sempre muito bom", embora tenham existido casos pontuais de abusos. "Havia também aqueles que de alguma forma tentavam aproveitar-se da desgraça dos outros, mas na grande maioria as pessoas solidarizam-se e tentam ajudar", conta. Como por exemplo, o caso da aldeia da Lousa de Cima, que se juntou para pagar a viagem a um dos refugiados, ou casos de pessoas que acolheram refugiados e que não lhes cobraram nada por isso.

Os que aqui chegavam, na maioria, olhavam para Portugal como um ponto de partida, para atravessar o Atlântico, com destino à América do Norte ou do Sul. Contudo, há relatos de "alguns que tenham casado com portugueses e ficado cá".

Durante a estada em Portugal, as principais localidades que acolheram estes judeus fugidos da perseguição nazi foram a Figueira da Foz, Coimbra, e depois algumas estâncias termais como o Luso, o Buçaco e a Curia, e também a Ericeira mais a sul, entre outros locais.

Mudam as razões, mas os êxodos mantêm-se

O problema dos refugiados e das (e)migrações forçadas e do êxodo da população continua a ser contemporâneo. Uns fogem de guerras, mas outros fazem-nos por outras razões, como por exemplo as alterações climáticas, que afetam muito as comunidades locais, nomeadamente as comunidades indígenas.

Na Plataforma de Ciência Aberta, em Barca d"Alva, existe uma exposição fixa que mostra a relação entre as alterações climáticas e as comunidades locais, de seu nome "Conversas com o planeta Terra", e na qual se percebe como uma comunidade dos Himalaias se teve de mudar pela escassez de água, mostrando "as transformações sociais que daí advêm", conta Maria Inês Vicente, coordenadora científica do espaço.

"Tanto para quem chega, como para quem acolhe", as transformações sociais são inevitáveis, pois "quem vem traz toda uma mochila, uma carga muito grande, com as suas raízes", acrescenta.

Também com os judeus que chegaram a Vilar Formoso houve algumas transformações sociais, muito embora tenham sido sempre "dois mundos que ficaram em paralelo", porque "a maior parte dos refugiados ficavam sobretudo pelos cafés, até porque não tinham emprego, na expectativa de terem notícias dos familiares e a tentarem obter um visto para entrar num barco", o que dificultavas as interações sociais, refere Margarida Ramalho. Muito embora existam casos pontuais de mudanças, sobretudo entre as mulheres ao nível da forma de vestir ou de, por exemplo, cortar o cabelo.

Integração de refugiados sírios, libaneses e sudaneses em Portugal

No dia 7 de novembro de 2020 fez cinco anos que chegaram a Portugal várias famílias de refugiados, que estavam num campo do Egito. No total eram 44 pessoas.

Nataliya Bek, socióloga e fundadora da associação Peacefull Paralell, esteve na linha da frente do acolhimento destes refugiados, e criou, ainda como funcionária da Fundação ADFP, de Miranda do Corvo, um protocolo de acolhimento de refugiados em pequenas localidades, como cidades mais pequenas e zonas rurais. Atualmente acompanham 13 famílias numerosas e algumas monoparentais, vindos de países como a Síria, o Sudão, o Sudão do Sul e a Líbia. "Nós continuamos, ainda hoje, a manter contacto e a perguntar o que precisam. O acompanhamento continua com a Pacefull Paralell", garante Nataliya Bek.

Atualmente, a pandemia trouxe uma nova crise. A renovação dos vistos de residência permanente está estagnada desde junho. "O título de residência permanente com estatuto de refugiados terminou e, desde junho, que tentamos renovar os documentos e não conseguimos", diz.

O apoio a estas famílias, no seu desenvolvimento pessoal e social é crucial, pois isso confere-lhes confiança e ferramentas de integração social. "Sem confiança e sem empatia, estas famílias não vão conseguir abrir-se para a comunidade e dar às comunidades a mistura de culturas que trazem dos países por onde passaram", acrescenta.

Acolher refugiados é desafio enorme para o país, as instituições e as comunidades locais, mas muito pouco ou um número muito reduzido para a quantidade de refugiados que precisam de ajuda e estão nos campos de refugiados. São "gente como nós", como se pode ler nas paredes do Museu Vilar Formoso - Fronteira da Paz, que serviu de local ao Terra a Terra Especial, no âmbito da Lisboa, capital verde europeia.

Embora muitas mais pessoas tenham contribuído para que chegassem a Portugal judeus perseguidos e para que conseguissem atravessar o Atlântico, a figura de Aristides de Sousa Mendes é fulcral nesta história e merece o seu espaço de destaque neste museu.

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