Terra a Terra, Lisboa Capital Verde

Eleita capital verde da Europa, Lisboa partilha a distinção com o país, mostrando locais que tentam, todos os dias, serem mais verdes, mais ecológicos e mais sustentáveis. Concelho a concelho, cidade a cidade, vamos dar a conhecer as maravilhas das paisagens, do património, a gastronomia, as histórias e personagens de todos os cantos do país, numa emissão especial verde conduzida por Miguel Midões e com o apoio técnico de Joaquim Pedro.
Para ouvir na antena da TSF às terças-feira, depois das 15h, e em permanência em TSF.pt e em podcast.

Lisboa quer afirmar-se como território vinhateiro. Brisa atlântica e serra de Montejunto criam microclima que minimiza impactos das alterações climáticas

A região vitivinícola de Lisboa é uma das maiores produtoras de vinho nacional.

Um território que, em comprimento, tem cerca de 150 km e em largura 40. E nesta dimensão, o que nos cativa é mesmo a paisagem, pois se optarmos por fugir à auto estrada entre Lisboa e Leiria, serpenteamos por estradas nacionais por entre vinhas e vinhedos, sempre com um farol que nos guia e que orienta também o resultado dos vinhos: a serra de Montejunto. É um ponto de referência na região vitivinícola de Lisboa, onde quer que estejamos ergue-se, imponente e cria uma barreira à brisa atlântica, gerando aqui um microclima, mais húmido pelas manhãs contrabalançado com tardes mais soalheiras e que confere ao vinho propriedades únicas.

Ao clima juntam-se os solos argilosos e calcários, onde estão plantadas as videiras que nesta altura do ano pintam a paisagem de vários tons de verde.

Às particularidades dos vinhos da região de Lisboa juntamos o enoturismo e não fugimos à essência desta série de programas Terra a Terra, que se foca sobretudo no ambiente. Estaremos perante uma região de produção de vinho sustentável? E como estão os produtores a lidar com as alterações climáticas? É o que tentamos descobrir nesta edição.

No sopé de Montejunto, a Quinta do Gradil produz vinhos com "longevidade".

A Quinta do Gradil, no Cadaval, está a produzir vinhos da região de Lisboa desde o século XV. Desde 1999 que está nas mãos de Luís Vieira, que começou nos vinhos pelas mãos do avô. "Estando numa zona agrícola teve uma importância histórica grande. Chegou-nos às mãos já com algum nível de degradação, que tentámos recuperar", conta o proprietário que começou ligado aos vinhos pelo avô, que tinha um armazém de vinhos na zona de Fátima. "Recuperámos as vinhas, depois fomos à adega e, mais tarde o palácio. Foram quase 20 anos de recuperação", acrescenta.

Os vinhos que produzem sofrem a influência atlântica, um "microclima extraordinário proporcionado por estarmos no sopé da serra de Montejunto, onde esta brisa atlântica encontra uma barreira e que proporciona a produção de vinhos frescos, com acidez equilibrada e com longevidade", descreve Tiago Correia, o enólogo da propriedade.

De acordo com o enólogo, a pirâmide de produtos "é muito completa", associando castas portuguesas com castas nacionais. Castas que pode conhecer no áudio deste programa.

As alterações climáticas na região de Lisboa "têm vindo a permitir vindimas no tempo certo", afirma. "A diminuição da pluviosidade e o atraso do início da precipitação no início do outono vai fazer com que as vindimas aqui se realizem nos momentos mais adequados à maturação", explica. Aquilo que para outras regiões, como o Alentejo ou o Douro, é amenizado na região de Lisboa pela humidade matinal e pela localização das vinhas, entre o mar e a Serra de Montejunto, que permite "minimizar os picos de calor com que as outras regiões mais sofrem".

Adega Mãe produz vinhos com "salinidade e acidez acima da média"

A Adega Mãe, em Torres Vedras, é um projeto com pouco mais de dez anos, que se mostra dinâmico, a conquistar mercados internacionais e que é uma homenagem com duplo conceito, como poderá ouvir no áudio do programa. Também aposta no enoturismo, numa imagem com design jovem, que espelha a própria adega, que é moderna e que abre janelas para uma vista panorâmica para as vinhas.

Já produz 1 milhão e 500 mil garrafas por ano, 70% delas para exportação. "Não é fácil implementar uma marca no mercado. Tem sido uma luta implementar uma marca e um projeto novo. Existem muitos e bons vinhos em Portugal. Os primeiros cinco anos foram muito duros, mas já conseguimos ter algumas marcas que se vão impondo, devagarinho, no mercado", refere Bernardo Alves, proprietário da Adega Mãe.

Também aqui se sublinha a "salinidade e a quantidade de iodo que existe no ar, que confere aos vinhos uma salinidade e uma acidez acima da média". Isto para os brancos, pois os tintos precisam de amplitudes térmicas, que lhes são proporcionadas pelas encostas da cadeia montanhosa de Montejunto.

A Adega Mãe está em produção integrada, diversificando também as culturas na propriedade, embora a vinha seja a parte dominante. "Sempre com o olho na biodiversidade, pois se cada um de nós der o seu contributo, no final teremos um resultado muito melhor", acrescenta.

Maior produtor da região produz vinho junto ao aeroporto de Lisboa

A Casa Santos Lima é o maior produtor de vinhos da região de Lisboa. É a entidade que, com a autarquia de Lisboa, criou o vinho "Corvos de Lisboa", com os cachos que saem da vinha que existe junto ao aeroporto da capital. "Ano após ano temos vindo a aumentar a área de vinha. Nas gerações anteriores era um vinho que era produzido a granel e vendido a outros comerciantes. Nós, desde os princípios dos anos 90, introduzimos uma linha de engarrafamento, e desde essa altura que invertemos esta filosofia. Hoje somos nós que compramos uva a mais de 90 produtores da região, com quem temos uma relação antiga e boa, complementando assim a nossa própria produção e respondendo a uma procura crescente do nosso vinho", afirma José Luís Santos Lima Oliveira da Silva, o proprietário, a 4ª geração de uma família de viticultores, oriunda de Santar.

Sem falsas modéstias, o proprietário considera que a Casa Santos Lima ajudou a colocar a "região no mapa", conferindo aos vinhos de Lisboa "uma referência" nacional e internacional. "Dos nossos portões saem mais de 50% dos vinhos da região de Lisboa, não obstante o aparecimento de novos e bons produtores na região", acrescenta.

José Luís Santos Lima Oliveira da Silva também aponta as características únicas do terroir. "É uma região particularmente favorecida pelo seu clima, pelo excesso de humidade em algumas regiões mais atlânticas, estando protegidos pelas encostas que vão de Montejunto até Sintra e que contribuem para que a temperatura média e as horas de sol sejam superiores ao de outras regiões", explica. É este microclima que dão vinho com boas maturações, graus elevados e boas concentrações.

CVR de Lisboa quer "afirmar Lisboa como grande nome de vinho e como território vinhateiro"

"À saída de Lisboa começamos a ver vinha" e a paisagem estende-se até Leiria. "Vinhos que expressam muito bem o sítio onde são produzidos, com forte presença atlântica e uma mineralidade e uma frescura muito própria", sublinha Francisco Toscano Rico, presidente da Comissão Vitivinícola de Lisboa (CVR).

Representa uma região que exporta 80% dos vinhos que produz, para mais de cem destinos, e que está focada sustentabilidade das vinhas e da produção de vinho, que está em maioria em produção integrada.

A região de Lisboa duplicou as suas vendas nos últimos anos e pretende agora "afirmar o nome de Lisboa no mercado nacional como território vinhateiro, que possa ser conhecido a partir da capital", refere. "Há uma necessidade de afirmar Lisboa como grande nome de vinho e como território vinhateiro", acrescenta.

As questões ambientais e de sustentabilidade são tidas em conta pela CVR de Lisboa. "O mar de vinha que aqui encontramos, a grande maioria, está em produção integrada. Tudo o que se faz é a pensar numa intervenção mínima e a pensar naquilo que se faz". Também a ser tida em conta está a pegada ecológica deixada pelo transporte do vinho. Há já empresas, em alguns mercados, a engarrafar o vinho no próprio país de destino. "Transportar vidro consome muito combustível fóssil e financeiramente é um encargo forte. Já se engarrafa algum vinho na Suécia e no Canadá, com todas as regras de controlo, mantendo a sua origem e qualidade", mas garantindo uma menor pegada de carbono associada ao transporte.

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