Terra a Terra, Lisboa Capital Verde

Eleita capital verde da Europa, Lisboa partilha a distinção com o país, mostrando locais que tentam, todos os dias, serem mais verdes, mais ecológicos e mais sustentáveis. Concelho a concelho, cidade a cidade, vamos dar a conhecer as maravilhas das paisagens, do património, a gastronomia, as histórias e personagens de todos os cantos do país, numa emissão especial verde conduzida por Miguel Midões e com o apoio técnico de Joaquim Pedro.
Para ouvir na antena da TSF às terças-feira, depois das 15h, e em permanência em TSF.pt e em podcast.

Na paisagem do paleolítico, em Portugal há desde ameaças da agricultura intensiva a "quase milagres" na preservação

Lisboa, que é a maior porta de entrada em Portugal, foi eleita em 2020 a capital verde da Europa, mas quer partilhar com o resto do país a distinção.

Nesta edição do Terra a Terra Especial, no âmbito da Lisboa - capital Verde Europeia, viajamos pela paisagem do paleolítico e do megalítico em Portugal, que em alguns locais está ameaçada (por exemplo, no interior alentejano, por causa da agricultura intensiva) ou precisa de uma melhor proteção (Alcalar no Alentejo pretende ser uma ZEP - zona de especial de proteção), ou ainda que já foi ameaçada e está agora intensificada a sua valorização (o caso das gravuras rupestres de Foz Côa).

Neste último caso, em 1995, interrompeu-se a construção de uma barragem para preservar as gravuras rupestres com mais de 30 mil anos. Aquilo que vemos no vale do Côa é uma herança que nos mostra como as pessoas viviam na altura do Paleolítico e a forma como se fundiam, utilizavam e aproveitavam a paisagem.

Bem mais abaixo no mapa de Portugal, em Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, existem mais de 130 antas e mamoas identificadas, mas em toda a região alentejana são milhares. Este concelho alentejano é um exemplo de boa conservação do património, mas não é assim a realidade de toda a região. Importa preservas estes vestígios do megalitismo, sobretudo porque se trata de um património que está a ser afetado pela agricultura intensiva na zona do Alqueva.

No Algarve, em Alcalar, no concelho de Portimão, visitamos uma necrópole do período calcolítico. São mais de 10 hectares de vestígios megalíticos, que são provas da existência de uma população, que aqui se instalou e que vivia à base da agricultura e da exploração dos recursos da terra. Percebemos que é contemporânea aos egípcios e que os 50 metros de proteção, que lhe confere o facto de ser património nacional, são bastante limitados para proteger toda a zona onde estaria situado este povoado. Por isso, quer-se agora que as mamoas de Alcalar sejam classificadas como ZEP - zona especial de proteção.

O "quase milagre" do Côa conservou-se ao longo de 30 mil anos

No Côa estamos perante "um milagre" na forma como as gravuras do Côa foram preservadas estando ao ar livre. É assim que fala sobre elas Thierry Aubry, responsável técnico científico do Museu do Côa. "Parece quase um milagre, porque temos uma paisagem que permite estudar a distribuição desta arte num território de centenas de quilómetros quadrados", explica. Um milagre porque se conservaram ao ar livre, ao longo de mais de 30 mil anos. Até ao início dos anos 90, a arte dos caçadores recoletores do paleolítico estava associada às grutas, mas com a descoberta Foz Côa conseguiu mostrar-se que "esta arte também utilizava as rochas ao ar livre, integrando as mensagens gráficas numa paisagem, modificando-a e criando os primeiros monumentos", contrariando assim a ideia de que os primeiros monumentos sejam os megálitos. "A sorte é que temos monumentos que se conservaram até aos nossos dias, num ambiente natural, numa convergência do social e natural, e que está distribuído ao longo de 17km do vale do Côa", acrescenta.

Os sítios não estão todos abertos ao público, mas é possível visitar quatro, nos quais é mais fácil ver as gravuras. "Ainda esta semana encontrámos novos sítios. Estamos a fazer a carta arqueológica, porque a que temos é a que data de 1995", afirma Thierry Aubry. "Neste momento estamos a tentar perceber o que se passa entre Foz Côa e Siega Verde, que também é património da humanidade. É preciso perceber como os caçadores recoletores se movimentavam e por onde passavam: se seguiam os rios ou se seguiam os planaltos", sublinha. Até porque naquela altura não havia fronteiras definidas no território (pelo menos, tal como hoje as conhecemos).

Agricultura intensiva ameaça património do megalitismo alentejano

O Eixo Montemor - Évora - Reguengos é um território com grande concentração de monumentos megalíticos. O primeiro inventário foi feito nos anos 40, do século passado, por um casal de alemães que identificaram, nesta paisagem de Reguengos de Monsaraz, 135 monumentos que remontam ao megalitismo.

Ana Paula Amendoeira, da direção regional de Cultura do Alentejo, refere que, na sua origem, "os monumentos megalíticos não eram visíveis e a arquitetura em pedra não era visível na paisagem". Apenas se tornam visíveis com a erosão do tempo e com o desaparecimento das terras e pedra que cobriam as mamoas.

O conjunto de antas do Olival da Pega, no concelho de Reguengos, tem uma anta de grandes dimensões, só suplantada pela Anta do Zambujeiro, em Évora, que é a maior anta da Península Ibérica. "Com a escavação foi possível identificar um corredor de 14 metros, de acesso à câmara, sagrada onde ficavam os mortos", diz. "Foi coberto parcialmente por uma questão de conservação", adianta.

Em outubro do ano passado, a Direção Regional de Cultura do Alentejo efetuou um pedido de classificação urgente e excecional deste património, por causa da mudança profunda do sistema agrícola que se está a assistir em algumas zonas da região. "Como não há controlo prévio dessas atuações agrícolas, tem havido uma grande destruição de património arqueológico, de monumentos megalíticos, mas também de vilas romanas. Tem havido muita destruição", alerta.

A DRC, reitera Ana Paula Amendoeira, não tem "competências que permitam atuar a montante", lembrando que o revolvimento das terras é maior para a agricultura intensiva, sendo trabalhada de forma mais profunda do que aquilo que faz a agricultura tradicional. "Pelo atraso de desenvolvimento económico que a região teve e pela baixa densidade populacional, e pela convivência harmoniosa com a agricultura ao longo de milénios, fez com que este património sobrevivesse", sublinha. O que a diretora regional agora pretende é que "haja um equilíbrio de interesses", sendo que o interesse público "tem de estar sempre presente quando se está a falar de património desta dimensão".

A proposta de proteção abrange 1645 monumentos megalíticos em toda a região do Alentejo, os que estão inventariados. "Têm sido noticiadas ultimamente a destruição de algumas antas", por isso a DRC quer que o Estado intervenha diretamente na abertura de um regime excecional de classificação urgente deste património, assegura Ana Paula Amendoeira.

Alcalar é património nacional, mas quer ser uma zona de proteção especial

Também no Algarve, sobretudo na paisagem pintada de verde, entre o mar e a serra de Monchique, existem vestígios dos povos do paleolítico. É o caso de Alcalar, no concelho de Portimão. É património nacional e pretende agora ser uma ZEP - uma zona especial de proteção, para que a paisagem que circunda a necrópole e as mamoas possa ser mantida tal como está e que não se percam vestígios e património.

Isabel Soares, diretora do Museu de Portimão, garante que têm sido acompanhadas as escavações no povoado e isso levou à ideia da criação de um núcleo dedicado a Alcalar neste espaço museológico. Os vestígios encontrados nas escavações foram musealizados, para "dar a conhecer como viviam estas pessoas há cinco mil anos".

Alcalar era o centro de todo um território, que se desenvolveu entre a Serra de Monchique e a ria de Alvor. "Um assentamento humano, que controlava todo um sistema produtivo muito diversificado, desde as atividades de marisqueiro, pesqueiras, agrícolas e de pastoreio, de caça, congregando toda uma comunidade que se servia deste para trocar aquilo que produzia no seu dia-a-dia, significando um enorme progresso, à sua época, em termos civilizacionais", explica o arqueólogo Rui Parreira. Tudo isto fazia de Alcalar um centro económico, político e religioso.

Este lugar de culto é visitável "in loco", mas no Museu de Portimão estão elementos das escavações que começaram nos finais do século XIX, bem como também das escavações mais recentes. "Através dessas peças, as pessoas conseguem perceber o quotidiano desta população e a importância da morte", acrescenta Isabel Soares.

Estes monumentos estão protegidos, desde 1910, com uma zona de proteção de 50 metros, pois são património nacional. A classificação mais recente ampliou a quantidade de monumentos classificados, mas há agora a necessidade de aumentar a zona de proteção, uma vez que, de acordo com o arqueólogo Rui Parreira, "os 50 metros não são suficientes para garantir o enquadramento paisagístico, as vistas do monumento, a preservação dos momentos de transformação da paisagem". Interessa "ampliar a zona de proteção, para garantir que os pontos de vista para os monumentos e a partir dos monumentos" se mantenham.

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