Terra a Terra, Lisboa Capital Verde

Eleita capital verde da Europa, Lisboa partilha a distinção com o país, mostrando locais que tentam, todos os dias, serem mais verdes, mais ecológicos e mais sustentáveis. Concelho a concelho, cidade a cidade, vamos dar a conhecer as maravilhas das paisagens, do património, a gastronomia, as histórias e personagens de todos os cantos do país, numa emissão especial verde conduzida por Miguel Midões e com o apoio técnico de Joaquim Pedro.
Para ouvir na antena da TSF às terças-feira, depois das 15h, e em permanência em TSF.pt e em podcast.

Paisagens "construídas" pelo homem e que salvaguardam biodiversidade

Uma viagem que começa pela primeira reserva natural privada em Portugal, Faia Brava, passa pela Herdade da Contenda e termina no parque florestal de Monsanto.

No programa de hoje, vamos percorrer a primeira reserva natural privada em Portugal, a Faia Brava, em Figueira de Castelo Rodrigo, junto ao Parque Arqueológico do Côa. Depois, descemos no território e vamos à Contenda, a herdade alentejana que ganhou o nome precisamente pela contenda entre portugueses e espanhóis. Foi aqui, neste vasto território de montado de azinho, que foi definido o último traçado da fronteira entre Portugal e Espanha.

Depois, voltamos a subir no mapa do país e vamos ao pulmão da capital e, em Lisboa, tentamos descobrir como Monsanto está a trabalhar na requalificação da floresta, aquela que todos os lisboetas já se habituaram a ver e a assumir como um dado adquirido, mas que é bem mais recente do que aquilo que se possa pensar.

Faia Brava: "o sonho de um grupo de biólogos"

Junto ao parque arqueológico do Côa, em Figueira de Castelo Rodrigo, está a primeira reserva natural privada, em Portugal. A Faia Brava comemorou, em junho do ano passado, 20 anos de uma área protegida pela ONG Associação da Transumância e Natureza. Nesta edição, a reportagem leva-nos a entrar no jipe de Marco Ferraz, colaborador da associação, que explica como surgiu, o que é a Faia Brava e o que se espera para esta área protegida privada, um dos poucos lugares em Portugal onde nidifica a águia de Bonelli.

Ainda considerado também território do Douro Superior, estes mais de 700 hectares são "o sonho de um grupo de biólogos", que no ano 2000 começaram a adquirir alguns territórios desta zona, que estavam "assilvestrados". Paisagens escarpadas em que existem as "joias" do território, como lhes chama Marco Ferraz: as águias de bonelli e o britango, o abutre do Egipto, "a ave que está no logotipo do parque do Douro Internacional", explica. "Uma ave que tem uma função ecológica para evitar que as doenças se espalhem", acrescenta.

Na viagem apanhamos "trânsito de um rebanho de ovelhas". A pastorícia ainda tem um peso importante na região e a procura de leite tem estado a crescer, mas Marco Ferraz alerta que "ver o pastor com as ovelhas, qualquer dia está em vias de extinção".

Já na Faia Brava estacionamos o jipe. Marco Ferraz de olhos postos no vale onde corre o rio Côa e no nevoeiro que faz uma cama densa explica a paisagem selvagem que temos pela frente e como está a ser toda a imensa área protegida a ser repovoada. "A paisagem está agora povoada por vacas maronesas, uma raça escolhida para aqui ser reintroduzida, em cerca de 700 hectares do lado de Figueira de Castelo Rodrigo, e os cavalos garranos, idênticos aos que foram extintos em determinado momento, os auroques, os cavalos selvagens, mas estavam presentes e são a primeira representação da nossa cultura", refere. A pergunta impunha-se: qual é a importância de integrar estes herbívoros no Vale do Côa? "Os grandes herbívoros têm uma função ecológica importante. Apesar de ser uma área assilvestrada não está abandalhada, a natureza está a funcionar com o apoio destas manadas". Estas manadas de animais "limpam, criam clareiras, dando oportunidade de outros animais poderem ter espaço, reduzem a carga combustível e enriquecem o solo".

A Herdade da Contenda e a "estrutura de mosaico que salvaguarda a biodiversidade"

As paisagens recuperadas ou construídas pelo homem levam-nos ao Alentejo. Seguimos as coordenadas do GPS e entramos nos milhares de hectares da Herdade da Contenda, do lado português. Dizemos do lado português, porque o território da Contenda se estende também, e muito, para o lado espanhol. O nome, aliás, resulta disso mesmo, da contenda entre portugueses e espanhóis, como explica Pedro Rocha, atual gestor da herdade.

A herdade da Contenda é candidata por Portugal ao Prémio Europeu da Paisagem. Esta candidatura surge depois da Contenda ter ganhado em 2020 o prémio de nacional de paisagem.

Até 1893 foi delimitado o território de fronteira, que "pôs fim à contenda" entre países vizinhos. A Contenda portuguesa tem cerca de cinco mil hectares, o montado é a "paisagem mais icónica, que foi sendo feita pelo homem ao longo de centenas de anos, através da utilização do espaço", afirma.

Trata-se de um "processo dinâmico que exige gestão. Se não o fizermos, a área de montado acaba ocupada por matos de menor interesse do ponto de vista de conservação. Interessa-nos manter uma estrutura de mosaico que salvaguarde a biodiversidade".

Inseridas ou baseadas no aproveitamento destas paisagens estão outras atividades. Entre elas, "uma das vertentes mais importantes e mais ancestrais é a apicultura". Em todo o território existem cerca de 20 apiários. Depois, há também a importância da pastorícia e das duas raças autóctones, que povoam a herdade: a ovelha marino preto e a cabra serpentina, "mais rústica, branca com uma risca preta".

Contudo, há ainda mais-valias que estão pouco exploradas e que, de acordo com Pedro Rocha, serão apostas futuras, como os cogumelos, o medronho e o turismo de natureza. "Estamos a montar percursos que queremos aproveitar no futuro", garante.

Depois do que aconteceu na Herdade da Torre Bela, em Azambuja, com as polémicas imagens de centenas de veados abatidos, e tendo a Herdade da Contenda uma "população interessante" destes animais, a TSF questionou Pedro Rocha sobre o que é feito para evitar cenários como este que descrevemos. O administrador garante que a gestão é feita pela própria administração e que é desenvolvida "apenas uma montaria por ano, cujo número de postos e de veados que podem ser abatidos está bem definido". Refere ainda que "esta gestão de caça é importante porque o veado, no caso da Contenda, se não é controlado, é também um risco para a regeneração natural da floresta", acrescentado ao problema existente de tuberculose, o que leva a que a entidade gestora estabeleça que "todos os veados são analisados por veterinários".

A população de veados é "interessante". "Houve uma altura em que era muito raro na Península Ibérica e aqui sempre existiu. É um motivo de interesse ao visitante, sobretudo no período da brama", explica.

Regeneração da floresta de Monsanto, o pulmão verde da capital

A ideia de um parque florestal de Monsanto foi a de criar um pulmão verde. Uma ideia que surge apenas no início do século XX. Até esta altura era uma zona agrícola, devido aos seus solos férteis, mas que, devido ao acentuado declive, não facilitavam a prática. O urbanismo modernista dos anos 30 levou à ideia de criar um pulmão verde que servisse a cidade.

Para este espaço de Monsanto, que tem menos de 100 anos, foram utilizadas as árvores que havia em viveiro, sem qualquer tipo de escolha ajustada ou autóctone. Agora, Monsanto tem um plano para 20/30, que é explicado ao pormenor, no áudio do programa, pela arquiteta Selma Pena, do Centro de Investigação em Agronomia, Alimentos, Ambiente e Paisagem do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa.

Em termos de proposta, as alterações passam pela índole ecológica, mas também cultural. Em termos de floresta, vamos assistir a uma "transformação gradual para vegetação autóctone, adaptadas ao local", que passará pelo sobreiro, carvalhos e azinheira. Espécies "que existem no parque" e que provam que a reformulação será feita "sem qualquer transformação radical do coberto do parque, que se pretende acompanhada da regeneração natural".

No fundo, o que acontecerá será um encaminhamento natural "feito com a ajuda" do homem. "Estamos a ajudar e a conduzir a natureza para que evolua da melhor maneira possível", explica Selma Pena.

Há áreas com exóticas e eucaliptos, "que podem ser mudadas e transformadas ao longo do tipo". Um combate que será paralelo à plantação das autóctones.

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