Terra a Terra, Lisboa Capital Verde

Eleita capital verde da Europa, Lisboa partilha a distinção com o país, mostrando locais que tentam, todos os dias, serem mais verdes, mais ecológicos e mais sustentáveis. Concelho a concelho, cidade a cidade, vamos dar a conhecer as maravilhas das paisagens, do património, a gastronomia, as histórias e personagens de todos os cantos do país, numa emissão especial verde conduzida por Miguel Midões e com o apoio técnico de Joaquim Pedro.
Para ouvir na antena da TSF às terças-feira, depois das 15h, e em permanência em TSF.pt e em podcast.

Paredes de Coura "território do lobo" – como preservar uma espécie ameaçada e o desafio de convencer agricultores e produtores de gado

O Terra a Terra da Lisboa Capital Verde entrou na toca do lobo, em Paredes de Coura.

A imagem do "lobo mau" assombra-nos de geração em geração, chega-nos pela literatura infantil, logo desde muito cedo, como o mau da fita. E essa ideia prolonga-se e instala-se na sociedade, ao ponto que o lobo seja hoje uma espécie ameaçada.

Mais concretamente o lobo ibérico, que recebe este nome por ser uma subespécie que habita a Península Ibérica, distingue-se dos outros lobos por ser mais pequeno e com uma pelagem amarelo-acastanhada. Em Portugal está em perigo e a paisagem é assim: a convenção de Berna diz que se trata de uma espécie estritamente protegida; a diretiva dos habitats considera-o uma espécie prioritária; e o CITES como uma espécie potencialmente ameaçada.

Para termos uma ideia, nos anos 30 do século passado, há menos de 100 anos, o lobo ibérico ocupava todo o território nacional. No início deste século já estava presente apenas na região norte e, mesmo assim, não estamos a falar de uma ocupação extensiva. Só nos anos 70 houve uma diminuição drástica da área ocupada.

A toca da TSF para realizar este Terra a Terra foi o CEIA - o Centro de Educação e Interpretação Ambiental da Paisagem Protegida do Corno de Bico, no concelho de Paredes de Coura. Para ajudar a debater a realidade do lobo ibérico e o que nestas paragens tem sido feito para protegê-lo, contámos com a colaboração de Tiago Cunha, vice-presidente da autarquia de Paredes de Couro; Francisco Álvares, investigador do CIIBIO - Centro de investigação em biodiversidade da Universidade do Porto, especialista Lobo Ibérico; João Brandão Rodrigues, veterinário, dinamizador de ações de sensibilização comunitária e educação ambiental no âmbito do projeto local "O lobo e o Homem"; e ainda Carlos Barreto Araújo, agricultor e sapador florestal, proprietário de gado bovino e gestor de uma área de cerca de 30 hectares em minifúndio localizadas na freguesia de Bico - no coração da Paisagem Protegida do Corno de Bico.

Relação homem-lobo é difícil há gerações consecutivas

Na paisagem protegida da Serra do Corno de Bico, o assunto mais delicado foi de imediato colocado em cima da mesa. Como fazer a gestão da convivência entre o lobo e a sua necessidade de proteção, com os munícipes, sobretudo os pastores e agricultores que, de quando em vez, veem os seus rebanhos atacados e as suas propriedades ameaçadas. "Não é fácil, mas faz-se sentando todas as pessoas à mesma mesa", garante Tiago Cunha, vice-presidente da autarquia de Paredes de Coura. "Procurámos envolver também os agricultores. Às vezes é difícil explicar o que é o equilíbrio da biodiversidade a alguém que foi dizimado", garante.

Em Paredes de Coura foi criado o projeto "O lobo e o homem", em 2014, para sensibilizar a população local para a necessidade de preservar esta espécie ameaçada. Francisco Álvares, conhecido por estes montes como o "chico dos lobos" concentra a sua investigação nas interações entre a vida selvagem e o Homem, como "a depredação no gado, respostas comportamentais a infraestruturas humanas e a etnologia relacionada às crenças e práticas das comunidades locais em relação a espécies selvagens". Trabalha há mais de 25 anos com as questões ligadas ao lobo, conhece as atitudes e os desafios. Considera que o diálogo tem de existir com os agricultores e com os produtores de gado, mas que "cada vez mais é preciso também falar sobre o desenvolvimento de infraestruturas, barragens, parques eólicos, centrais solares, que podem envolver conflitos com o lobo, em termos de sustentabilidade. É preciso perceber que queremos caminhar todos no mesmo sentido", refere.

O veterinário courense, João Brandão Rodrigues, tem apoiado o projeto de sensibilização de âmbito local, acreditando no potencial que o lobo pode assumir para este concelho, lançando desde já a ideia de Paredes de Coura, como "o território do lobo". "Esta aproximação do bosque, a entrar pelas aldeias dentro, e que é consequência do abandono rural, criam corredores para que os lobos se possam aproximar. Depois, a maioria da população das freguesias tem agricultura de subsistência, mas não são agricultores profissionais, o que faz com que os animais passem grande parte do dia fora, pelo menos das 9h às 17h. Os lobos, porque são inteligentes, aperceberam-se que é muito mais fácil atacar durante o dia", explica João Brandão Rodrigues. O veterinário salientou ainda a importância de os agricultores terem cães de gado, que "são absolutamente fundamentais", pois evitam a aproximação do lobo, mas explica outras medidas a implementar no áudio deste programa.

"O lobo e o homem" é também o nome de um conto dos irmãos Grimm, que refere o ataque do lobo a um homem, incentivado por uma raposa, mas na verdade não há registo de ataques a humanos há mais de cem anos. Já aos rebanhos e às manadas, a resposta está longe de ser a mesma. Carlos Barreto Araújo sofre na pele a consequência de os lobos terem cada vez menos alimento selvagem nas montanhas e que utilizem os corredores florestais, cada vez mais próximos das populações, para descerem aos lameiros e atacarem os animais que pastam nestas zonas. "Não vou dizer que tenha ataques todos os dias, que isso é exagerado, mas tenho muitas muitas vezes. Ataques de lobo é comum", afirma.

Até existem indemnizações para os ataques de lobos, mas a burocracia é alguma, pois é preciso deixar bem provado que o ataque foi, de facto, feito por um destes animais, o tempo de espera é muito e, na grande parte das vezes, garante-nos o produtor, o parecer vem negativo, acabando o prejuízo nas mãos do agricultor. "Há um apoio. Quando encontrarmos o animal, se encontrarmos o animal, vêm técnicos do ICNF, mas é preciso provar que foi o lobo. Mas, muitas vezes, vemos que é o lobo e eles, passados dois ou três anos, dizem-nos que não há provas disso", acrescenta.

A nível local, autarquia, investigadores e entidades parceiras tentam percorrer caminhos, de mãos dadas, em busca de soluções para este dilema. Caminhos e soluções que poderá ouvir na edição áudio do programa que anexamos a este texto.

O corno de bico é uma região montanhosa, no concelho de Paredes de Coura, cujo monte mais alto tem 883 metros, e é uma zona protegida, onde se passeia o lobo ibérico, também ele uma espécie protegida.

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