Terra a Terra, Lisboa Capital Verde

Eleita capital verde da Europa, Lisboa partilha a distinção com o país, mostrando locais que tentam, todos os dias, serem mais verdes, mais ecológicos e mais sustentáveis. Concelho a concelho, cidade a cidade, vamos dar a conhecer as maravilhas das paisagens, do património, a gastronomia, as histórias e personagens de todos os cantos do país, numa emissão especial verde conduzida por Miguel Midões e com o apoio técnico de Joaquim Pedro.
Para ouvir na antena da TSF às terças-feira, depois das 15h, e em permanência em TSF.pt e em podcast.

Portugal perde cinco mil hectares de montado todos os anos

Lisboa, que é a maior porta de entrada em Portugal, foi eleita em 2020 a capital verde da Europa, mas quer partilhar com o resto do país esta distinção.

Portugal tem a maior área de montado de sobro e de azinho do mundo, são perto de um milhão e duzentos mil hectares, ou seja, mais de 20% de toda a floresta nacional. O país produz mais de 50% da cortiça mundial e exporta mais de 900 milhões de euros em materiais ligados à cortiça por ano. Reduzir o montado à exploração da cortiça é redutor, pois estamos a falar de um ecossistema único, com características singulares em termos de paisagem, mas também em cultura e património, e em riqueza ambiental.

Trata-se de um sistema agroflorestal de uso múltiplo, moldado pelo homem. Paisagem dominada por árvores como o sobreiro e a azinheira, "espécies que tinham porte essencialmente arbustivo, mas que devido à intervenção do homem e atividades agrícolas, começou a ser selecionado para crescer e fazer sombra, e criou uma floresta que é utilizada de múltiplas formas", como explica Margarida Santos Reis, professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. O sobreiro produz cortiça e a azinheira produz bolota, essencial para a produção, por exemplo, de porcos, ou não estivessem os montados também associados à exploração pecuária.

Existe um livro verde dos montados, criado em 2013, que permite olhar para o montado por outras perspetivas que não apenas a económica. "É preciso perceber as várias valências do montado", refere Teresa Pinto Correia, investigadora e professora da Universidade de Évora. O objetivo do livro foi o de dar a conhecer o sistema, mas também as suas ameaças. "É um sistema onde há árvores, a componente de pastoreio e, em algumas vezes, a componente agrícola", explica, sublinhando que a componente de pastoreio e pecuária têm um peso fundamental. "Importa gerir o equilíbrio" de tudo isto, pois "não podemos esperar que todos os montados sejam só florestais".

Uma das principais ameaças ao montado português reside nas alterações climáticas. Cristina Máguas, coordenadora do Centro de Investigação de Ecologia, Evolução e Alterações Climáticas e professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, refere que "no montado de sobro, uma das falhas que tem acontecido é pensar-se que ele é muito resistente e adaptado à seca. Ele está verdadeiramente adaptado à seca, mas apenas até um certo limite". Mas, associado às alterações climáticas "temos uma gestão e uma exploração que nem sempre foi conduzida da melhor forma". Cristina Máguas acrescenta que, em muitos casos, é preciso também perceber a questão do solo e dos micro-organismos que nele existem. "Uma exploração exagerada em termos pecuários, a utilização de gado bovino em sistemas intensivos faz com que o solo deixe de ter a capacidade de responder à seca, que sabemos que existe num clima mediterrâneo", explica.

Associado a estes problemas já mencionados estão os números que mostram que desde 1990 que Portugal perde, em média, cinco mil hectares desta área por ano. O país tem um milhão e duzentos mil hectares de montado (de sobro e de azinho), com várias densidades, "mas vamos perdendo estes hectares anualmente, não por haver um corte ou por decisão de cortar as árvores, mas simplesmente porque as árvores vão morrendo e não vão sendo repostas", afirma Teresa Pinto Correia.

Uma situação que tem passado despercebida até pelos próprios proprietários, "com clareiras cada vez maiores, onde não há cobertura florestal ou arbórea". "Há dificuldade em tomar consciência disso", acrescenta a professora da Universidade de Évora.

De acordo com a investigadora, é necessário ajudar os proprietários a perceberem como pode existir um equilíbrio entre a preservação e a sua rentabilidade económica. Para isso, sugere "criar modelos de negócio igualmente rentáveis, mas que consigam manter este equilíbrio necessário, por exemplo com as espécies de gado bovino mais sustentáveis, como as raças autóctones".

Existem ainda cenários em que a plantação de sobreiro é intensiva, criando aquilo que as investigadoras chamam de florestas e não de montados. "Há sistemas que são designados por montado, mas que são sistemas florestais, cujo produto económico é só a cortiça, onde não existe o produto pecuário. Se a densidade se torna muita e sem utilização do subcoberto, será um sistema tendencialmente florestal", dizem. O limite é difícil de definir. "Ter sobreiros como culturas regadas, para potenciar o crescimento, o que interessa à indústria corticeira, pode ser um sistema interessante, mas deixa de ser montado", indica Teresa Pinto Correia.

O montado é um sistema único a nível mundial, que importa preservar, do ponto de vista económico, cultural e ambiental e, por isso, foi tema do terceiro Terra a Terra Especial, Lisboa - Capital Verde Europeia.

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