Terra a Terra, Lisboa Capital Verde

Eleita capital verde da Europa, Lisboa partilha a distinção com o país, mostrando locais que tentam, todos os dias, serem mais verdes, mais ecológicos e mais sustentáveis. Concelho a concelho, cidade a cidade, vamos dar a conhecer as maravilhas das paisagens, do património, a gastronomia, as histórias e personagens de todos os cantos do país, numa emissão especial verde conduzida por Miguel Midões e com o apoio técnico de Joaquim Pedro.
Para ouvir na antena da TSF às terças-feira, depois das 15h, e em permanência em TSF.pt e em podcast.

Território raiano do Guadiana: o rio separa, mas as pontes culturais unem

O Terra a Terra desta semana é dedicado, uma vez mais, ao território de fronteira, mas à raia molhada.

Depois de termos estado em território de fronteira seca, em Castro Laboreiro, Sabugal e Penha Garcia, esta semana, completamos a paisagem de fronteira com o território que é separado por rios. Descemos no mapa e vamos até Alcoutim e Castro Marim, onde o Guadiana, separa Portugal e Espanha, mas onde as gentes se sentem filhos de uma mesma terra.

Alcoutim do lado português espelha Sanlúcar do lado espanhol e vice-versa. Se fossem do mesmo país, há muito que as vilas, que seriam só uma, teriam uma ponte a unir as duas margens. Assim, os 200 metros de rio são atravessados de barco e, por estrada, são mais de 70km para percorrer as ruas de um povo irmão, que grita da outra margem uma mesma cultura e uma proximidade que, embora abalada pelos períodos de guerra, nunca desapareceu.

É Fernando Dias, técnico do Património Cultural da Câmara de Alcoutim, quem nos ajuda a nadar nesta ligação cultural entre as duas margens. Vilas criadas para defender o território, mas que nunca se sentiram de costas voltadas, muito pelo contrário, são espelho uma da outra. Até já houve uma ponte pedonal efémera, que foi criada para simbolizar a ligação entre as duas povoações.

Estar em Alcoutim é quase como estar à janela para o outro lado. Fernando Dias refere que "para qualquer Alcotenejo, Sanlúcar é o espelho de Alcoutim. Estão separadas pelo Guadiana e são o espelho uma da outra". Com as redes sociais, o fenómeno tornou-se até interessante, pois as fotos que surgem como de Alcoutim, e de facto tiradas nesta margem do rio, o que mostram é a vila do lado de lá. "Não sei se ainda demoraremos muitos anos ou séculos até que isto seja entendido como uma única povoação", afirma. Fernando Dias considera que, no futuro, acabará por acontecer.

Para perceber bem esta relação próxima com a outra margem é preciso ouvir o áudio do programa. Por agora, damos conta de uma vontade com dezenas de anos: a construção de uma ponte rodoviária, que permita o convívio mais de perto entre ambas as populações e, quem sabe, o regresso de maiores trocas comerciais. "Sou apologista da ponte, julgo que poderia trazer algum desenvolvimento, que é fundamental, tanto para o lado de Alcoutim, como para Sanlúcar, porque são duas regiões periféricas. Mas é preciso pensar nas ligações que essa ponte terá, não podemos deixar ficar as estradas secundárias com centenas de curvas para chegar a todo o lado. Uma ligação rápida e moderna de um lado e de outro poderão permitir que as populações se aproximem e que se incentivem algumas trocas turísticas e comerciais", aponta.

Mais abaixo, descendo o Guadiana de Barca, atracamos no porto de Castro Marim, que já no século XVIII via chegar e partir barcos de mercadorias e de pessoas de/para Vila Real de Santo António ou Ayamonte (Espanha). As ligações com os dois países vão muito para além da fronteira física que se impõe desde a idade média.

Pedro Pires, técnico de Património Cultural da autarquia de Castro Marim, retrata a paisagem cultural deste município algarvio como uma "confluência de várias gentes, de vários povos do mediterrâneo e da Andaluzia, mas também do restante reino quando se tornou praça militar". Um povo "adaptável", que resulta da mistura destes povos, do contexto de guerra, de fronteira "como um local difícil".

Há 800 anos de história de fronteira e apenas cerca de 40 foram passados em guerra, os restantes foram de trocas comerciais e culturais. "Habituámo-nos a viver com os nossos hermanos", diz.

Antes da ponte rodoviária sobre o Guadiana, "que acabou por ser o maior monumento à relação entre Portugal e a Aldaluzia", o trajeto fazia-se de barco, pelo rio e pelos afluentes, "mais difícil", explica. "Para muitas pessoas não ter uma ponte pode parecer estranho, mas para nós era o habitual", refere, lembrando que iam de ferry, que partia de Vila Real de Santo António. "Mesmo em tempo de guerra, quando as relações eram teoricamente cortadas, havia circulação de gente, de informações, de espionagem. Comerciantes que vinham da zona de Sevilha, uma comunicação que nunca se interrompeu completamente. Castro Marim era a porta de entrada do Algarve", conta.

Esta semana, olhámos para a paisagem do território de fronteira que é separado por rios, naquele que foi o episódio 21 desta temporada de Terra a Terras ao abrigo da Lisboa, capital Verde, em que Lisboa mostrou ao país e ao mundo o que temos de melhor em questões ambientais, sociais e culturais, mas também o que pode ainda ser melhorado.

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