Daniel Carapeto: "Escrevo todos os dias. Sem isso não vamos a lado nenhum"

Daniel Carapeto está na estrada com o novo espetáculo "Tragédia". O comediante que alterna entre "arrogância e falta de confiança" já pensou em desistir e afirma que escreve piadas melhores quando está em baixo.

Estás a começar o teu espetáculo novo, "Tragédia". Como é que correu a primeira noite?

Correu bem, foi em Porto de Mós e correu bem. Obviamente falta limar algumas coisas, foi só a primeira data, mas acho que correu bem.

Não há muitos sítios onde se possa testar.

O nosso mercado não nos permite testar tantas vezes quantas gostaríamos. Mas o texto que eu levei para lá foi todo testado. Podia ter testado mais vezes, mas foi todo testado.

Há uma fórmula antiga do humor que diz "tragédia + tempo= comédia". Tem alguma coisa a ver com isto?

É mais pela cena da parte da maior parte da comédia nascer de coisas más. A maior parte dos comediantes que conheço escreve assim. Eu escrevo coisas bastante melhores, ou que eu acho que estão melhores, quando estou mal... quando não estou ok. Vês um Louis CK a falar daquelas cenas todas... percebes que houve ali uma fase em que eles estavam na merda. E de repente tu percebes que há aquela cena de fazer e de escrever comédia sobre aquilo. É um bocado por aí. E quando tive a ideia do nome também estava a passar por uma fase assim... Mas isso é engraçado, sabes, porque eu agora estou buéda bem. Estou numa fase bué bacana, e de repente estou num espetáculo que é ultra depressivo, mas mesmo, ultra depressivo. A puxar constantemente para baixo e a criar tensão, e eu agora até estou bacano.

O espetáculo está em curso e não podemos entrar em grande detalhe, mas é um espetáculo pessoal?

Sim, é muito pessoal. Epah, pessoal são sempre todos, não é? Porque um gajo está a escrever sobre a nossa vida. Mas, imagina, eu começo o espetáculo com uma história minha, que aconteceu mesmo, e termino com outra que aconteceu mesmo também. Lá pelo meio falo sobre os tempos da escola... sim, é quase tudo pessoal.

No teu espetáculo anterior, que está no Youtube recorreste a vídeo. Neste também?

Não, não há nada de vídeo... aliás, já nem gosto de vídeo, não gosto de espetáculos de stand up que tenham isso. Abri uma exceção da última vez, mas estive a pensar até à ultima hora se o devia fazer. Eu não gosto, mas achei que aquilo era demasiado bom para eu não por. Epah, era eu no Big Show SIC. Foi por aí. Eu não gosto muito de projeções, slides e essas coisas.

Gostas mais de stand up clássico?

Isso mesmo. Eu e um microfone. Isso para mim é o perfeito.

Já vamos falar da tua carreira, e do arranque da tua carreira, inicialmente no Facebook...

Não. Comecei a fazer stand up antes de ter a página de Facebook. Comecei em outubro de 2012, e só criei a página em junho de 2014.

Ok. Já vamos falar disso, mas antes: eras o palhaço da turma?

Não, não. Fazia muita merda na escola, e vou falar disso também neste [espetáculo]. Era aquele gajo que mandava bocas? Sim, era. Mas não era aquele gajo de constantemente querer ser o centro das atenções. Era muito mais cínico, e muito mais maldoso, se calhar. Havia aqueles gajos que era palhacinhos, sei lá, de repente dançavam... eu era aquele gajo que mandava uma boca, mandava piadas.

Mas notas que já nessa altura tinhas uma aptidão diferente para o humor?

A partir de um certo ponto, sim... Do 9º ou 10º ano.

Como? Comentários cínicos que ao mesmo tempo eram humorísticos?

Sim. Acho que a maior parte dos comediantes, quando começa por descobrir que tem graça ou consegue fazê-lo, é por querer integrar-se em espaços ou com pessoas. E acho que isso aconteceu, a dada altura da minha vida, começar a utilizar o humor para isso, sim.

Em 2012 começas a fazer stand up. Como é que vais parar a esse mundo?

Eu tinha 20 anos quando comecei, e aos 17 ou 18 anos descobri que havia noites [de espetáculos] em Lisboa. Fui ver algumas vezes. Eu sempre gostei de stand up, desde os tempos do Levanta-te e Ri. Nunca tinha visto ao vivo. Aos 17 ou 18 um gajo começa mais a sair, ia ver... e a certa altura, pensei "eu faço melhor do que isto". Foi literalmente isso. E não sou o único, já ouvi mais gajos a dizer isso. Comecei mesmo a achar, "porra, eu acho que sou capaz de fazer melhor do que isto". Mas eu sempre tive pânico de palco. Costumo dizer que quem me conhecesse antes de eu fazer isto, nunca acreditaria que seria possível. Dizias ao meu pai e à minha mãe há 10 anos que eu ia fazer isto, e eles diziam que tu eras maluco. Mas mesmo!

Comecei a achar isso do "eu sou capaz de fazer melhor" e tal... O Aldo Lima deu um workshop, só de um dia, no Famous humor fest, foi no São Jorge. E fui e no final, cada pessoa teve de dizer duas ou três piadas. Eu já andava há dois anos a escrever piadas, disse as minhas melhores, e o pessoal riu-se... E eu fiquei a pensar: "se calhar vou mesmo fazer isto". E depois fui tirar o curso da Bang e foi por aí.

E o que depois? Bares, o percurso habitual?

Sim, eu atuei muito em bares. Ainda hoje atuo em bares, se for preciso... mas nos dois ou três primeiros anos, fartei-me de atuar em bares.

E quando é que decides que queres mesmo fazer vida disto? Foi quando criaste a página?

Não foi há muito tempo que eu achei que podia viver disto. Se calhar foi só aí há dois anos... e mesmo assim, ainda não estou confortável, não estou mesmo. Durante muito tempo achei "epah, estou a tirar o meu curso"... ainda por cima eu licenciei-me numa àrea em que arranjo trabalho num estalar de dedos... licenciei-me em Engenharia de Telecomunicações e Informática... "depois arranjo um trabalho e vou continuar a fazer isto". Só que nos últimos dois ou três anos, a cena melhorou. Enquanto conseguir estou cá, mas é lixado.

Não estás ainda confortável com a ideia de viver só disto?

Eu estou... Mas quero ganhar mais dinheiro. Claro que estou, eu quero viver só disto.

Ao longo desse percurso houve algum momento em que tenhas pensado em desistir?

Todas as semanas, para aí... buéda vezes, buéda vezes mesmo. E eu sou de extremos, ou estou completamente na merda, completamente depressivo, tipo a achar que sou horrível e o que é que eu estou aqui a fazer... E de repente, faço uma cena que corre bué bem e ando aí que pareço um maluco. Eu sou muito de extremos. Oscilo muito facilmente entre uma grande arrogância e uma grande falta de confiança. Portanto, sim, muitas vezes pensei em desistir.

Por acaso ultimamente não tem acontecido tanto. Era o que te estava a dizer, ando numa fase boa. Por isso é que é estranho... eu estou a fazer o meu espetáculo em que quase todo o texto é bué depressivo, mas muito mesmo, e eu tento estar ali com uma persona bastante vincada para não desmanchar aquilo. E eu agora estou numa fase bué boa, está a ser muito estranho. Tenho mesmo de me esforçar. Eu não precisava de me esforçar tanto para estar assim, percebes? Já estava naturalmente... Só que escrevi aquilo tudo, e a vida tem-me corrido bem ultimamente.

E quando em 2014 crias a página de Facebook "o Estúpido", foi só pelo gozo ou querias já construir alguma coisa?

A página é mesmo criada com o objetivo de dar a conhecer o meu trabalho a mais pessoas. Aquilo que eu passei a fazer na página, que era publicar piadas todos os dias, já fazia no meu perfl pessoal. Os meus amigos levavam comigo todos os dias, eu publicava montes de piadas. Só que depois era tipo "ok, estão aqui os meus amigos... mas isto não é nada. Quero chegar a mais gente". E foi aí que abri a página.

Há pouco perguntava-te se alguma vez tinhas pensado em desistir... Estavas a dizer que era quase todas as semanas.

Durante o tempo em que eu estava a escrever o espetáculo, a dada altura, achava que tudo o que eu estava a escrever era mau. Escrevia, ia testar, não corria como eu queria. Eu fiquei muito satisfeito com o meu primeiro solo, e pensei que dificilmente ia conseguir fazer melhor. Porque o que eu andava a escrever era tudo mau. "Eu não sou capaz de fazer isto outra vez". Epah, depois mandei tudo fora, eram para aí 20 ou 30 minutos, mandei tudo para o lixo, não gostava daquilo. E tive de escrever cenas novas.

Este texto que estás a fazer, neste espetáculo novo, ao longo de quanto tempo é que o escreveste?

Há 40 minutos que foram escritos com bastante tempo. Depois há para aí 20 que foram escritos nos últimos dois ou três meses. Quando digo que foram escritos é o momento em que eu me sentei ao computador e comecei a organizar aquilo tudo. Há muitas piadas que tenho escritas há anos, porque eu funciono quase como um banco: escrevo todos os dias. Quando preciso de falar sobre um tema, pesquiso no meu Twitter ou naquelas que nem estão no Twitter... Por exemplo, agora tenho um bit sobre alterações climáticas, às tantas eu já tinha aquilo escrito e pensei "ok, agora tenho de preencher com punchlines". Vou ao meu Twitter pesquisar pelos temas relacionados, "esta dá, esta dá, esta dá", e é um bocado por aí.

Mas tu obrigas-te a escrever todos os dias, de forma disciplinada? Sentas-te ao computador?

Sim, sim. Epah, nem que seja no telemóvel. Nunca é uma, escrevo sempre mais, mas nem que seja uma piada e meto no Twiter. Tem mesmo de ser assim. Se não for assim, não vamos a lado nenhum.

O mercado em Portugal é pequeno. A tua comédia adapta-se bem a espetáculos de empresas?

Eu se quiser escrevo coisas que resultam. Não tenho a mínima dúvida que consigo. Qualquer empresa que me queira contratar, por amor de Deus, eu vou aí e vou ser espetacular. Mas toda a gente sabe que os espetáculos de empresas não são fáceis de fazer. O público às vezes não está completamente atento, às vezes têm vergonha de rir à frente do chefe. Por exemplo, o bit sobre a minha avó, que são para aí 15 minutos, dá perfeitamente para fazer. O bit sobre as princesas da Disney, dá perfeitamente para fazer.

Para além da reacção do riso, preocupas-te com as reações de quem ouve?

Não me preocupo. O barulho todo é nas redes sociais, nunca me aconteceu alguém abordar-me na rua. As pessoas que não gostam de ti não te abordam na rua, isso não aontece... não penso nisso... até devia pensar mais. Para mim é uma piada, é fixe e "bota"... Agora, se te disser que não me afeta ter centenas de pessoas a enviar mensagens e a insultar... afeta. Mas quando faço [piadas] não penso nisso. O que vem depois? Epah, olha... depois resolvemos. Eu antes era muito de responder a essa gente. Pah, e atualmente...

Responder individualmente mesmo?

Não era responder a todas as mensagens. O pessoal ia lá insultar e eu respondia. Por exemplo, o Carlos Coutinho Vilhena [humorista] já me tinha dito montes de vezes "porque é que fazes isso? Estás a perder o teu tempo". Ele e outras pessoas já tinham dito, mas ele dizia-me muito: "Epah, não faz sentido responderes. Só saímos pior disso". E é verdade. Mas eu sempre fui aquele gajo... se me dão uma chapada... O Twitter é uma selva. Ainda hoje houve uma mini cena aí... Uma piada que eu fiz. Hoje em dia respondo muito pouco. Já fui mais disso.

Esta questão da preocupação com a reação das pessoas leva-nos à escolha que tu fizeste. É uma escolha diferente do habitual, uma escolha dupla, mas que começa com um bit de stand up.

Escolhi o Dave Chappelle. Ele não é o meu favorito, no sentido em que há gajos de quem gosto mais. Mas não sendo o meu favorito, está no top 6 ou 7, e acho que ele atualmente é o melhor. E o regresso que ele teve já há dois ou três anos, quando lançou aqueles dois, depois mais dois, e agora mais um, mostrou que ele está noutro nível. Eu gosto muito de o ouvir a falar sobre comédia, seja em espetáculos ou não. E esse bit, que é o ínicio do The Bird Revelation é muito fixe, porque ele não começa aquele especial a receber palmas e a entrar em palco. Não. Ele começa aquilo já sentado, a falar sobre uma cena que todos nós achamos, todos nós fazemos isto e às vezes temos de levar com ataques. Nós fazemos piadas porque temos piada, não é para sermos maus, nós temos qualquer coisa cá dentro que nos puxa constantemente para fazer piadas. Não é para sermos maus. E depois aquela parte em que ele diz "que tudo é engraçado até nos acontecer a nós mesmos", acho que está muito bom esse início. Parece mesmo que o gajo está só a ter uma conversa introdutória e eu curto essa cena. Às vezes quando temos gente a chatear, às vezes quase apetece... nem é responder, é só dizer "é isto aqui". Em Portugal, de cada vez que se fala nisso da liberdade de expressão, o que se pode fazer piada e o que não pode... é uma conversa que a mim me chateia muito, mas às vezes quase que apetece só dizer, "epah, eu não vou responder, mas toma tudo o que o Ricardo Araújo Pereira disse sobre isto", porque ele é melhor a fazê-lo. E isto o Chappelle também tem: ele é melhor a explicar do que eu, que me vou enervar, eu já sei como é que eu sou, perco as estribeiras... Não, ouve só a entrevista deste. Às vezes mais vale só mandar o Ricardo Araújo Pereira que é muito mais inteligente do que todos nós a fazê-lo, manda-se uma entrevista dele e se fica resolvido.

A discussão sobre o politicamente correto é muitas vezes tóxica, confusa, com muito ruído... Há um problema potencial, não sei se alguma vez aconteceu, mas passa por isto: a dicussão pode ser contaminada por má comédia. Ou seja: as acusações ao politicamente correto podem ser aproveitadas por comediantes com menos talento, menos trabalhadores, para se fazerem de vítimas.

Mas isso é subjetivo. Não sou ninguém para dizer quem é melhor e pior, nem tu, nem ninguém. Ou seja, como isso é subjetivo, tem simplesmente de se assumir que todos o podem fazer. Como isso é tão subjetivo, vale tudo. Eu acho isso. Agora, uma coisa também concordo, que recentemente até o Anthony Jeselnik [comediante norte-americano conotado com o humor negro] falou disso, que é: nós também damos demasiada importância a isso. Eu faço um bocado a comparação com as touradas. As touradas, se não existissem tantas pessoas fanáticas anti-tourada, já tinham acabado, por falta de interesse das pessoas. Nós, se calhar, devíamos ter reagido com mais desinteresse.

Há erros de parte a parte. As pessoas que não gostam não deveriam, em vez de perderem tempo a falarem disso, seguirem em frente?

Concordo, mas muitas vezes eu sou esse gajo. Eu às vezes também me vejo aí. O pessoal entra muito na cena de "ah, vocês não sabem ouvir críticas". Eu percebo essa cena, eu lido mal com críticas. Eu e muitos comediantes. Mas... fazem-nos a crítica, e eu não posso responder? Ou, só porque respondo, já estou a lidar mal? Não, tu dizes-me e eu posso responder. E é isto. Ou seja, eu faço uma piada, levo com críticas, então e não posso responder às críticas? Tenho de ficar quieto? Não, eu posso responder. Dizem: "não consegue ouvir uma crítica". Consigo, mas deixa-me criticar a tua crítica.

A discussão não pode ser também contaminada com uma confusão entre aquilo que é ofensivo e e aquilo que eventualmente é comédia fraca?

Claro, mas as pessoas estão no direito de ser fracas. Parece que só o Ronaldo é que joga futebol... O que é que eu quero dizer com isto é que para tu chegares a ser bom, é um processo. E para saberes se a piada é boa, muitas vezes, só sabes quando a contas. O que no nosso caso é publicar numa rede social, ou seja o que for. É um processo... Ou o Anthony Jeselnik nasceu assim? A conseguir escrever aquelas piadas com aqueles twists incríveis que ele consegue? Não! Um dos temas que dá mais azo a porcaria é: violação. Não há piadas boas sobre violação? Digo-te já aqui cinco ou seis que são boas. Para chegar lá, tu tens de fazer... Como é que tu chegas a uma piada boa sobre isto ou seja o que for? Fazendo! E parece que essa gente, que são muitos deles comediantes frustrados... de famílias ricas, ultra privilegiadas, a tentarem ensinar aos outros com o que é que eles se devem ofender. E querem ofender-sae por interposta pessoa, que é uma coisa que me irrita. Muitos deles tentaram fazer comédia a dada altura, e muitos são terríveis. Fizeram coisas terríveis, mesmo séries... tu vais ver aquilo e dizes "ah, este gajo é que me estava a criticar? Foda-se, que vergonha. Tens isto para apresentar?"

É fácil para uma pessoa que está a começar, fazer choque, e o choque resulta sempre. Nem que seja por desconforto. E às vezes nem há piada nenhuma, é só mesmo o choque.

Concordo com isso. Por exemplo, às vezes há aquele riso, que sabemos claramente identificar... que não é um bom riso. Às vezes foi tão mau que eles estão-se a rir. E ao início não é assim tão fácil descortinar isso. Mas eu acho que há muitos anos acontecia mais esse tipo de choque de que falas, porque é verdade que a velha questão de humor negro andava na moda. Eu nem gosto sequer dessa etiqueta de humor negro ou humor de seja do que for. Para mim há humor, ponto. A mim já me tentaram associar a isso... dizerem que eu sou um gajo de humor negro. Eu não sou um gajo de humor negro. Faço piadas "daqui até aqui" [fazendo um gesto amplo]. É um bocado por aí. Mas antes estava na moda e era bem verdade isso... muita gente que estava a começar entrava logo com a cena de "vou é aqui fazer uma piada sobre cancro". Mas isso já passou, eu acho. Tenho visto pessoal que está a começar agora, e não acho nada disso.

Toda esta questão, sobre o equilíbiro entre aquilo que é a piada, e uma potencial ofensa, está de alguma forma representada no bit teu que escolheste, para mostrar aqui. Queres dizer o que é?

Esse bit está incluído num set bastante grande que é só sobre fumar. É um dos meus favoritos, é um dos que mais gostei de ter escrito. Todo ele tem várias piadas de que gosto bastante. Todos nós quando somos jovens, temos aquela cena de fumar à frente dos pais, não é? E temos todos aquele amigo que começou a fumar muito cedo à frente dos pais. Parece que aos 12 ou 13 anos já a mãe lhe dava cigarros... E escolhi este bit [a partir dos 49m53s] porque gosto muito e acho que é bom.

Apesar de poder parecer um bocado básico, no sentido em que tem ali piados sobre levar no cu, não acho que seja básico. Eu falo do tabu que é o facto dos nosso pais já saberem que nós fumamos, eles sabem perfeitamente, mas não fumamos à frente deles. Há esse tabu. A dada altura é quebrado, e depois parece que foi tão idiota. É isso que acontece, não é? Esses amigos que já fumam há anos à frente dos pais, mandam-nos bocas a tentar rebaixar-nos. E então eu fiz uma comparação entre isso, e o que é que seria se eu fosse homossexual antes de me assumir. Não que isso tenha algum mal, não é por aí... E o que eu digo é que, mesmo que eu fosse homossexual, eu nunca levaria no cú à frente dos meus pais, da mesma maneira que posso fumar, eles podem saber que eu fumo, mas não vou fumar à frente deles. Quando escrevi isso, gostei muito... acho que ficou bom.

Vamos ao Chappelle outra vez, e agora já não é a fazer stand up.

É um excerto do Dave Chappelle no "Comedians in Cars Getting Coffee", que é uma série bastante fixe para quem quer começar a fazer comédia, e mesmo para quem já faz. Acho que se aprende muito lá, com pessoal experiente e que já fez mil e uma coisas. E é o Dave Chappelle a descontruir um bocado uma coisa... e eu até sou um bocado advogado do diabo nessa questão, que é: tudo o que nós dizemos em palco é sentido? Eu acho que não. Há coisas que eu digo em palco porque é para rir. Digo porque tem piada. No entanto, ele diz uma coisa que é verdade, que é: o nosso eu verdadeiro é aquele que está lá em cima, não é aquele que anda cá fora a fingir. Acredito que todos nós temos ou poderemos ter uma génese bastante má, há montes de coisas que só não fazemos porque iríamos presos. Não é porque somos boas pessoas. Muitas vezes em palco dizemos piadas e não concordamos com aquilo. É verdade. Se faço uma piada a dizer que abandonava um cão, eu não concordo mesmo com aquilo. E já fiz várias. É um tema que eu adoro fazer, o abandono de animais é um dos meus temas favoritos, não sei porquè. E eu adoro animais. Só que eu gosto de me colocar na perspetiva de: o que é que eu seria se não tivesse de viver nesta sociedade? Ainda bem que vivo, não é? Mas o que é que eu seria, se não houvesse regras? E o Dave Chappelle diz essa cena que é: o verdadeiro eu, é aquele que está em cima do palco, não é o que está cá fora.

Ele nesta conversa com o Seinfeld também diz: "às vezes é a ideia que decide o teu caminho, não és tu que a levas onde queres". Revês-te nisto?

Ele está, basicamente, a explicar duas formas diferentes de funcionar. Quando ele diz que por vezes é a ideia que nos leva... por vezes que há cenas que surgem, que parece que aquilo já está feito. Mas eu 90% das vezes não sou assim. 90% das vezes tenho de me obrigar a sentar e escrever. E ele lá fala das duas coisas. O que ele diz é que quando a ideia aparece já feita, parece que é melhor. E é verdade que é melhor, parece que aquilo nos caiu do céu, ou que não tivemos de suar tanto para lá chegar.

Quando dizes que tentas escrever todos os dias, nem que seja só uma ou duas piadas no telemóvel, ou então sents-te ao computador... As pessoas têm flutuações de humor- Como é que manténs essa obrigação, passando por flutuações de humor?

Quando estou muito animado, o que é raro, é normalmente quando eu escrevo coisas muito idiotas, muito estúpidas. Às vezes, de madrugada, estou em casa, estou a fumar e só a escrever porcaria. E aquilo é um ginásio... estou a treinar, basicamente. Mas quando escrevo coisas realmente boas, é mais quando estou na mó de baixo. E acho que com a maioria é assim. Quando há um certo bem estar, são só cenas... ridículas, piadas idiotas. Aquilo raramente vai a lado algum. Mas escrevo na mesma.

Nesta conversa com o Seinfeld, o Chappelle também diz: "as pessoas pensam que a persona é quem está no palco, mas não". Identificas-te com esta ideia?

Ele diz "the real me", o verdadeiro eu. Eu percebo o que ele está a dizer... O que ele quer dizer é: aquilo que nós somos em palco, [para o público] é como se valesse tudo. Mas não vale tudo. Nós vivemos numa sociedade, e bem, que tem regras. Eu não posso bater-te, eu não posso matar aquela pessoa... Mas, ali em palco é o "verdadeiro eu"... como se valesse tudo. Vale, porque são piadas. Porque eu posso estar ali a dizer que vou matar o primeiro ministro, mas não vou... Eu disse só. As pessoa riem-se. Ou seja, nós somos mais falsos quando estamos na vida real, a viver com todas estas condicionantes, do que quando estamos ali. É isso que ele diz, acho eu. E eu adoro essa cena. Adoro esse raciocínio.

Tu não és o comediante mais sorridente do mundo, é a "persona" ou és mesmo assim?

Eu não sou, mesmo na vida real, uma pessoa muito animada. Agora, que eu extrapolo isso na minha "persona" em palco, claramente extrapolo. Por exemplo, lembro-me que quando fizemos a última data de "Roda Bota Fora" houve gente, comediantes que estavam a assistir, que acharam que eu tinha mesmo ficado chateado numa cena. Epah, e não, aquilo é a nossa mecânica. E depois também depende do bit que eu estou a fazer. Há bits em que não sou esse gajo arrogante, sou outra pessoa. Agora, é verdade que eu não sou aquele gajo que está sempre a sorrir... não sou. Mas também não é tão exagerado como muitas pessoas pensam.

Achas que o universo de humor em Portugal representa bem o país que temos?

Não. Não representa bem no sentido em que está tudo concentrado em dois grandes polos, que é Lisboa e Porto. Portanto, sendo assim, nunca vai representar bem o país que nós temos.

E no universo social? Nos Open Mic [espetáculos onde qualquer pessoa pode atuar], 90% são gajos entre os 20 e os 25, brancos.

Eu sou contra quotas seja onde for. Para mim, sinceramente, é-me irrelevante se o humorista é branco, preto, mulher... no caso dos géneros pode já não ser tanto, porque é factual que sendo eu homem, talvez me identifique mais com o que um homem tem para me dizer. Eu quero é que me façam rir. Tal como acho ridículo o uso de quotas em qualquer outra coisa, acho ridículo na comédia. Por exemplo, não percebo porque é que em montes de eventos que há, no nosso meio, montes de gente se junta e diz "então e mais mulheres neste cartaz?". Eu às vezes apetece-me perguntar a essas pessoas: "quais?". Atenção, há mulheres com piada... por exemplo, a Joana Marques. Eu nem lhe achava muita graça. Ela sabe isso decerteza. Recentemente comecei a ouvir muitas vezes o podcast dela, e acho que tem imensa piada. Mas ela não faz stand up... Rrecentemente apareceu uma que eu acho que tem graça, que é a Luana do Bem, acho que ela é fixe. Mas também não tem muito tempo disto. Há a Joana Gama, a Catarina Matos. Mas são poucas, não é? Onde é que eu quero chegar: então estas quatro ou cinco, e mais duas ou três que haja que nós agora não nos estejamos a lembrar, têm de estar em tudo, é isso? Cada vez que há um cartaz de qualquer coisa, temos de ter estas três para cumprir uma quota de mulheres no humor? A Cátia Domingues também tem imensa piada, também não faz stand up.

Não me refiro a um ponto de vista prático, de gestão, não é isso. Mas acontece-me, e suponho que aconteça a mais público: parecem todos iguais.

Percebo o que estás a dizer. Mas, por exemplo, eu não me considero igual à maioria.

Não és de facto. Mas um alien que aterre aqui, e que veja fotos de comediantes, fica a pensar que há uma farda, que têm todos de ter entre 20 e 25, que têm todos de usar camisas com padrões... Isto provavelmente é uma generalização injusta (como qualquer generalização), mas há uma parte muito grande dos comediantes que parecem supermodelos, não parecem pessoas reais.

Essa crítica havia muito relativamente aos humoristas "betos". Por exemplo, o Carlos Coutinho Vilhena, o Teixeira da Mota, o Geirinhas, o Salvador... Havia muito isso. Mas por exemplo, falando dos três primeiros que eu mencionei: eles são bons. Pah, o Vilhena, para mim, fez das melhores séries da história do humor nacional, há meia dúzia de meses. Ele é bom. Agora, eu percebo o que estás a dizer no sentido em que, por exemplo, eu considero-me bastante diferente da maioria que aí anda, a nível de origens. Se calhar poderia não vir tudo de uma certa faceta da sociedade... Poderia, mas vamos forçar as coisas?

Claro que não. Não me refiro a forçar seja o que for. Estou apenas a refletir sobre o tema.

Claro que poderia haver mais gente de outros meios a fazer humor. Claro que sim. Venham eles, lá está, comecem a fazer.

Isto também tem explicações fáceis de entender. Tem que ver com o facto da comédia em Portugal não ter a mesma tradição, e os mesmos anos e a mesma rodagem que tem noutros países, não é?

Claro. O Salvador costuma dizer várias vezes, uma coisa que é verdade: as gerações seguintes vão sempre cometer menos erros do que as anteriores. Tal como, se calhar, a geração a seguir à minha já vai aparecer muito mais gente de diferentes origens.

Tenho curiosidade em ver como é que os comediantes vão envelhecer. Em ver o que é que tu e outras pessoas vão fazer quando tiverem 40, quando tiverem 50.

Já tenho piadas escritas para o futuro... isto é ridículo. Eu tenho piadas escritas para quando tiver filhos. Não vou contá-las, mas já fiz essa merda. Se calhar quando lá chegar olho para elas e acho horríveis. Mas eu tenho curiosidade também em relação a isso. Primeiro gostava de saber se quando chegar a essa altura ainda cá vou estar, e como é que será... Acho que vou ser um bocado Bill Burr ou Mark Maron, claramente... eu já sou aquele gajo que se irrita e se enerva agora, quanto mais quando eu tiver 50 e tal anos.

Como é que tu vês o estado da arte da comédia no nosso país?

Acho que temos bons comediantes, que temos melhorado. Eu comecei há sete anos, e... sete anos não é nada. Sete anos lá fora, nos Estados Unidos, é um bebé. Neste país se calhar já é alguma coisa. Por exemplo, houve alí três ou quatro anos após começar, que eu não senti que aparecesse muita gente fixe, mas agora acho que estão a aparecer bués. O António Azevedo Coutinho, que começou depois, mas até esteve muito tempo sem atuar, e agora está a voltar, eu acho que tem imensa piada. Gosto muito do que ele faz.

E está a ajudar-te no teu canal de Youtube.

Exato, o "Bicho do Mato" . O Guilherme Ludovice também tem boas piadas. Acho que o Guilherme Ludovice tem uma coisa até diferente, por acaso é o único caso que eu conheço em Portugal, que é: escreve aquilo a meias com um amigo. Ou seja, são dois a escrever para um. É diferente do habitual. A Luana é fixe também. Dois gajos que eu adoro, que apareceram depois de mim, são o Nuno Curva e o Marco Marques. O Marco Marques é muito bom a escrever, muito mesmo, adoro a escrita dele. E vão aparecer mais.

Enquanto espectador, o que é que gostas mais de ver em stand up? Não te peço nomes, mas estilos.

Eu gosto de piadas, estás a ver? Não sou tão fã de gajos de storytelling. Mas o meu favorito é um gajo que faz isso, que é o Jim Jefferies. Eu gosto de gajos com um ritmo avassalador. Eu também gosto de ser esse gajo... Portanto, sim, eu diria que é o que mais gosto. Quando já fazes isto há muito tempo, ou quando já viste muita comédia, mesmo que não faças, depois também é cada vez mais difícil fazer-te rir, não é? E isso é uma coisa... hoje em dia é raro eu ter prazer a ver Stand Up.

Não consegues ver sem analisar?

Não consigo nunca. É preciso ser muito bom para eu me surpreender mesmo. Por exemplo, o Anthiny Jeselnik lançou o último especial há meia dúzia de meses. E é um dos melhores do mundo a escrever. Estive o espetáculo todo a tentar apanhá-lo. Apanhei-o duas ou três vezes, ou seja, apanhei-lhe três piadas... mas passei o espetáculo todo a tentar. Quase como: está o mágico a fazer-te o truque, e tu estás a tentar descobrir.

Isso é uma tortura. Não consegues desfrutar?

Pois é, não consigo mesmo. Mas eu continuo a ver, atenção. Eu desfruto à mesma, mas já não é aquela cena de me estar ali a rir, entendes? Atenção, eu adoro analisar. O do Jefferies quando saiu, vi duas ou três vezes, para analisar coisas que ele fez. Eu curto bué fazer isso. Portanto desfruto na mesma.

O que é para ti o humor? Que definição consegues dar? Toda a gente fala em perturbação, em doença, em gente que bate mal...

A maior parte bate. Os bons têm todos uma pancada. A maior parte leva isso como uma forma de se adaptar a alturas difíceis da vida. Acho mesmo. Agora, uma definição para o humor... sei lá, não tenho. Pergunta isso a quem saiba falar sobre humor, eu não tenho, acho eu, maturidade sequer para te responder a isso. Tenho 27 anos, faço isto há sete.

Mas sabes responder a isto: porque é que gostas de fazer as pessoas rir?

Epah, é muito mais por mim do que por eles. Porque mexe com o meu ego. Eu acho que sou bom a fazer isto. Deve haver gente que acha que não. E nesta arte, tal como em muitos desportos... "Eu consigo fazer isto e tu não". O Obikwelu corre os 100 metros... É para nos mostrar a todos nós que ele consegue fazer aquilo e nós não. Eu faço isto para mostrar a imensa gente que eu consigo e "vocês" não. É muito mais egoísta... É muito mais eu estar as pessoas a rir e pensar "sou mesmo bom", do que "ah, pôr felicidade na cara das pessoas". Não, é muito mais egoísta do que solidário, estás a ver? Muito mais para mim do que para eles. Agora, espero que eles lá continuem, não é?

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