TSF Pais e Filhos

Como a intuição não chega e eles não nascem com livro de instruções, a TSF propõe um programa para partilhar ideias, conselhos de quem sabe (desde os conselhos técnicos de pediatras e psicólogos, aos conselhos de pais), propostas de lazer, de brincadeiras, de passeios e reportagem. Sem nunca deixar de responder às dúvidas dos pais, vamos também ouvir os filhos. Com coordenação de Rita Costa.
De segunda a sexta, às 08h40, com repetição às 16h40. Edição alargada à terça-feira, às 18h45.

Algumas ideias para uma conversa sobre a guerra com as crianças  

O tema é sensível. Num mundo ideal nem seria assunto, mas estamos confrontados com mais uma guerra e, com a informação a circular a toda a hora em várias plataformas, é difícil evitar. Mais tarde ou mais cedo, as notícias vão chegar às crianças e, assegura Inês Afonso Marques, os pais serão as melhores fontes de informação e de segurança.

"Há assuntos sobre os quais um pai ou uma mãe preferiam não ter de falar com os filhos", mas, às vezes, não há forma de fugir e aí importa ter algumas ideias em consideração. Às primeiras notícias da invasão russa, a psicóloga Inês Afonso Marques escreveu um artigo sobre os cuidados a ter na abordagem do tema quando os interlocutores são crianças. Falámos com ela para aprofundar ideias e, ao longo das últimas semanas, temos escutado os seus conselhos.

"Sabendo que, em princípio, aquilo que as crianças querem é sentirem-se seguras, essa deverá ser a primeira preocupação dos pais, transmitir segurança às crianças", começa por dizer a psicóloga, que sublinha a necessidade de adequar o discurso à idade da criança. Depois é preciso dar espaço e tempo para que a criança coloque as suas questões. "Não dar nem demasiada informação, não dar informação para a qual a criança não está desperta para ela, podemos filtrar, podemos perceber quais são os seus receios, os seus medos e as suas dúvidas", sublinha Inês Afonso Marques.

É preciso também ter em consideração todos os estados emocionais que a criança possa ter. "Nunca devemos minimizar ou ridicularizar e dizer à criança que não faz sentido. Se a criança sente, apesar de ser uma realidade que geograficamente não está perto de nós, é muito importante que o adulto transmita com naturalidade aquilo que possam ser os receios da criança", afirma a psicóloga, que lembra que os pais são modelos e, como figuras de referência, devem naturalizar as emoções dos filhos, não escondendo que até para eles, adultos, a guerra "é uma situação difícil de compreender".

Não faz mal que as crianças percebam que mesmo nos pais podem estar presentes diferentes estados emocionais, "desde o medo à revolta, à injustiça e à incompreensão", já que os pais são modelos "quer de expressão emocional, quer de gestão emocional". No capítulo da gestão emocional é, no entanto, importante ter atenção à forma como são verbalizadas as emoções para evitar "respostas emocionais exacerbadas de extrema revolta ou de medo acentuado" porque isso pode causar insegurança nas crianças.

Outro alerta feito pela psicóloga Inês Afonso Marques tem a ver com a tentação de explicar uma guerra a uma criança com a ideia de oposição entre bons e maus. "Pode ser perigoso falar", avisa. "Claro que a criança fará sempre esta associação porque há maus que atacam pessoas inocentes que não pediram para experienciar a situação que estão a experienciar, mas também para nós, adultos, é uma situação tão difícil de compreender que pode ser um bocadinho perigoso falar de bons e de maus, poderá ser mais sensato falar de desentendimento, de conflito, de diferentes linhas de pensamento que, pela incapacidade de se comunicar, poderão gerar situações menos positivas como a que estamos a assistir". A tónica, defende a psicóloga, deve ser colocada na importância do diálogo na resolução dos conflitos.

Apesar do tema da guerra ser um tema muito pesado, Inês Afonso Marques acredita que uma conversa sobre ele pode ser uma oportunidade para explorar valores humanos e valorizar as coisas boas da vida. "Falar sobre a guerra pode ser uma boa porta de entrada para adultos, crianças e jovens poderem falar sobre valores que sejam partilhados pela família, seja a tolerância, a comunicação assertiva, o respeito ou a entreajuda." Além disso, é também uma oportunidade para valorizar as coisas positivas da vida das crianças. "Não é um ato de egoísmo ou de insensibilidade face ao que se está a passar" ajudar os mais pequeninos a perceberem as coisas boas e seguras que os rodeiam, sejam questões de segurança, de saúde, de bem-estar. "É uma boa oportunidade de fazer este exercício de gratidão por aquilo de bom que possam ter nas suas vidas", defende a psicóloga, que acredita que esta pode ser também uma forma de apaziguar potenciais receios que sejam sentidos pelas crianças.

Aos pais, Inês Afonso Marques deixa mais um conselho: estejam atentos a possíveis alterações comportamentais que possam resultar de alguma dificuldade na gestão emocional como dificuldade em adormecer, pesadelos, ansiedade, maior dependência do adulto ou medo de frequentar algum lugar.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de