TSF Pais e Filhos

Como a intuição não chega e eles não nascem com livro de instruções, a TSF propõe um programa para partilhar ideias, conselhos de quem sabe (desde os conselhos técnicos de pediatras e psicólogos, aos conselhos de pais), propostas de lazer, de brincadeiras, de passeios e reportagem. Sem nunca deixar de responder às dúvidas dos pais, vamos também ouvir os filhos. Com coordenação de Rita Costa e sonoplastia de Miguel Silva.
De segunda a sexta, às 08h40 e 16h40

"Super protegemos o menino, colocamo-lo num algodão." E depois?

O psicólogo espanhol Javier Urra avisa que a super proteção não prepara as crianças para a vida. Bem pelo contrário, incapacita e cria dependência. Por isso, aconselha os pais a repensarem a educação que estão a dar aos filhos.

Os pais de hoje têm muitos medos e ansiedades e isso leva-os, por vezes, a super protegerem os filhos. Javier Urra, autor do bestseller "O pequeno ditador" acredita que este é um fenómeno que acontece em boa parte devido à sensação que os pais têm de poder dedicar pouco tempo aos filhos, mas neste caso "a emenda é pior do que o soneto". O psicólogo defende que é um erro guardá-los num algodão, colocá-los numa redoma ou cortar-lhes os ramos como se de um bonsai se tratasse. Eles precisam de limites e de conhecer os problemas que a vida tem.

De visita a Portugal para lançar o seu mais recente livro, "Deixe-o Crescer", Javier Urra deu uma entrevista ao programa TSF Pais e Filhos e deixou algumas recomendações aos pais para que as crianças cresçam social e eticamente e se preparem para as dificuldades que inevitavelmente a vida lhes vai trazer.

Neste livro fala-nos da super proteção como um problema. É um diagnóstico que faz à sociedade?

Vejo que na Península Ibérica, em Espanha e em Portugal, temos menos filhos do que antes. Os pais e, sobretudo as mães, têm a sensação de que podem dedicar pouco tempo aos filhos e muitas vezes isso leva a super proteger.

Aos filhos é preciso dar-lhes amor, segurança, carinho, mas também é preciso impor-lhes limites.

Quando um menino vai meter os dedos numa tomada, devemos dizer-lhe que não e quando um adolescente quer sair até altas da noite com gente de mais idade e que pode ter consumos, há que dizer-lhe que não.

Quer isso dizer que têm de aprender a lidar com a frustração?

A vida também é aceitar a frustração. A vida é saber que às vezes é preciso esforço, que é alegria, mas que também há problemas. Super proteger, eu não diria que é um maltrato, mas prejudica.

Porque afinal, super protegemos o menino, colocamo-lo num algodão, mas quando tiver 18 anos tem que encontrar um trabalho, tem que procurar uma companheira, que normalmente três em cada quatro se vão separar e, portanto, vai ter que aceitar a rutura, a dor que alguém lhe diga 'não'.

Por isso, super proteger faz com que a criança, o adolescente, o jovem não leve a vida nos seus próprios braços. Porque, por exemplo, um rapaz, um jovem a quem a sua mãe ou o seu pai nunca lhe disse não. Vai aceitar que uma mulher lhe diga que não?

Essa super proteção incapacita-o, torna-o dependente e quando lhe surgem dificuldades ou fica frustrado ou fica deprimido. A vida é o que é. E não podemos exigir da vida mais do que aquilo que ela nos pode dar.

Mas os pais têm muitos receios. Há maneira de proteger sem super proteger?

Eu protegeria uma criança para quando atravesse a estrada olhe para a esquerda e para a direita.

Protegeria um menino para que se acautele quando entra no computador e tenha 13 anos, se comunica com outro de 13 anos, mas que afinal não é de 13 é um senhor de 33. Isto é que é difícil.

"Se esse que acreditas ser outro menino te pede fotografias ou te pede dados sobre onde estás, não lhe digas. Diz-me a mim que sou tua mãe, ou sou teu pai". Sim, ai influenciaria.

Protegeria, por exemplo, para as páginas sobre o tema da alimentação, a anorexia, e que fazem um trabalho muito negativo. As seitas, o fanatismo. "Deixa os teus pais, deixa a escola e vem comigo porque somos um grupo salvador", as drogas. Parece-me que estão aqui temas que, acredito, é preciso proteger, claro. Mas uma coisa é proteger, outra coisa é criar um ninho onde então o rapaz no primeiro dia que sai, passa a primeira noite sozinho, não tem limites, não tem equilíbrio.

Defende que não podemos poupar as crianças dos males do mundo...

Aos sete anos tem de ir a um acampamento para saber o que é a austeridade, para saber que quando chove se molha, para saber o que é a solidão, para saber o que é partilhar, para olhar para as estrelas e perguntar o que fazemos nesta vida, porque é que estamos aqui ou para quê, mesmo que não tenha a resposta.

Um menino de 9 anos tem de ir acompanhado a um hospital para ver crianças que estão muito doentes. Vão aceitar e entender que estar são é uma sorte e que as sapatilhas que querem comprar, pois muito bem, mas isso é uma coisa muito acessória que não é importante.

Eu creio que uma criança têm de ir dar beijos à avó que tem demência senil, que não entende muitas coisas, mas capta o carinho, a pele com pele.

A ideia é não super proteger. É ensinar-lhe às colheradas o que é a vida para que logo saiba manejar a vida sem que as circunstâncias se apoderem dele.

A vida é um conflito? Sim. A vida gera problemas? Sim. Devemos evitar todos os problemas? Não.

Proteger é então educar sem retirar obstáculos?

O que protege é um sistema em que os pais educam e são educados pelos filhos, as normas priorizam-se e antecipam-se.

Os pais dizem: vamos fazer as coisas assim e aos domingos vamos comer a casa dos avós. "Ah! mas os avós contam sempre a mesma história". Ok! Vamos a casa dos avós e na cabeceira da mesa vão estar os avós. Se repetirem a história, repetem. E como não gostam que estejam a jogar no telemóvel, pois bem, não vai haver ecrãs.

Os avós são importantes, são meus pais, e eu adoro os meus pais. Como tu filho acredito que gostes de mim, portanto, vamos a casa dos avós.

Com isto os miúdos dão-se conta que não estão no centro do mundo. São importantes, mas os pais também, mas os avós também. Todos somos importantes.

O sistema é educar, falar das coisas, mas são os pais que tomam as decisões. Não porque não, diria poucas vezes. Mas às vezes é preciso dizer porque não. Se o rapaz se puser a insistir "dá-me uma explicação, dá-me outra explicação". "E porquê?" "E como?" Há que dizer: "Porque eu te digo!"

Porque eu te digo, não é porque eu sou um ditador e mande. É porque sou o teu pai ou a tua mãe. E porque eu sei o que é melhor para ti, vou fazer o que consideramos que é melhor para ti.

No livro "Deixe-o crescer" compara as crianças de hoje a bonsais...

Ocorreu-me a ideia de que uma árvore forte tem muitos ramos. Uma árvore forte tem muitas raízes. Uma árvore forte é um carvalho. É muito difícil que venha um vento e a tire. Para arrancar uma árvore tem de ser um verdadeiro furacão.

Um bonsai é uma árvore muito bonita, mas o que se passa é que não a deixas crescer. E como não a deixas crescer tem um tamanho muito bonito para pôr numa mesa, mas não é uma verdadeira árvore. É algo que gostamos, que nos faz lembrar uma arvore, mas queremo-la à nossa medida.

A árvore cresce, supera-nos, protege-nos e algum dia há que cortar os ramos que de tão grande que está ameaça a casa. E o nosso filho não nos pertence. Eu trouxe-o à vida, gosto dele, daria a vida pelo meu filho, mas ele não é meu. E ele crescerá e será o que quiser ser. Em grande medida o que os pais predefiniram, em grande medida não.

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