Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

 A "alegria" do Jardim de Verão

Há quatro anos que Helena Melim Borges faz parte da equipa que desenha os sons e as formas da programação de julho, da Fundação Calouste Gulbenkian. Este ano foi preciso reinventar o jogo da descoberta, e a galeria ZDB ( Zé dos Bois) aceitou o convite para despertar os sentidos confinados pela pandemia. A parceria está montada com normas de acesso que cuidam a linguagem, sem mascarar ou inibir o prazer da surpresa e da reflexão. Um fim de semana de cada vez.

A programação estava concluída em janeiro, mas o mês de março trouxe a Covid e a vida parecia escapar ao bater do coração de um dos espaços nobres da cidade de Lisboa. Logo este ano, em que a Fundação tinha arriscado "sair da caixa" e desafiado um programador externo, a galeria ZDB, a povoar o Jardim de Verão 2020. Ora, na Natureza nada se perde, tudo se transforma e em Março, apesar do confinamento, cada um em sua casa, foi esboçando o novo tempo. Sons da vida que se instala lá fora, sons com a vida da nova normalidade, o regresso aos sítios do nosso verão . O jardim esconde surpresas, e as artes sobem ao palco do Anfiteatro ao Ar Livre. Música, performance, instalações. Artistas residentes em Portugal. A partir de amanhã.

Helena Melim Borges é um dos rostos da Gulbenkian, a diretora adjunta do programa Cultura, está na casa há muitos anos mas nunca a casa lhe tinha feito tanta falta: "A Fundação salvou-me, nos dois meses e meio em que estive fechada e sozinha ". Foram horas e mais horas, entre o telefone e o écran do computador, numa fala diária que permitiu levantar do chão a iniciativa que marca a agenda cultural da cidade de Lisboa, todos os anos, durante o mês de julho, mas não só. "Seriam não sei o quê", aqueles 2 meses e meio, sem a companhia de todos, na busca por soluções que permitiram ativar o Fundo de Emergência para os artistas, em plena pandemia. Helena Melim fala do encanto de trabalhar 10 a 12 horas a partir de casa, do estar só mas muito acompanhada, dos livros que adora mas pouco leu, da música, essa sim, que a fez subir o volume da aparelhagem e lhe moldou os passos e os pensamentos, "tinha 20 ou mais cds, ainda embrulhados no papel celofane", ouviu todos e talvez possa ter dançado, com a música aos gritos, num prédio quase só para ela.

Às sete da tarde, tinha encontro marcado no écran com os filhos e os netos, noutros dias, a outras horas, foram "Webicopos", partilhando a conversa com amigas e um copo de vinho tinto. Sem abraços e sem beijos, mas cheia de muitos mimos. Não é pessoa de se ir abaixo, e até lembra que o pai lhe dizia isso mesmo, " a Helena não nasceu para ser infeliz".

Nasceu no Funchal, veio para o Continente para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, formou-se em Filologia Germânica e tem uma Pós-Graduação em Ciências Documentais. Ainda deu aulas de substituição, mas percebeu que não era talhada para o ensino, porque rapidamente estabelecia preferências, passou por 2 Ministérios, no tempo em que se mudava de ministro a cada 6 meses e entra para os quadros da Fundação Calouste Gulbenkian em 1983, primeiro no Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas, mais tarde no Serviço e Educação e Bolsas, e está no programa de Cultura desde 2012, trabalhando com Rui Vieira Nery, de que é amiga, a quem enaltece a sabedoria e a lealdade. A Fundação é uma "segunda família", a equipa que faz o Jardim de Verão,

"Extraordinária" , e o tom doce que coloca nas palavras pode ser também do hábito do chocolate com que presenteia os que lá trabalham. Inês Rapazote, assessora da Fundação, deixa cair lá ao fundo do estúdio "nós na verdade trabalhamos para os chocolates". Acaba por juntar-se aos últimos minutos da conversa, num ensaio sobre o sotaque madeirense, que as duas têm no sangue, e que todas as manhãs costumam soltar ao telefone. Depois volta o sotaque do trabalho, e de novo o Jardim de Verão.

Um concerto na sexta, outro no sábado e domingo, sempre às nove da noite, no anfiteatro da Fundação. Leve máscara (obrigatória) e manta se o vento se fizer frio. Mas há mais.

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