Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

Simone e a Mariazinha

Mais dia, menos dia, foram cinquenta dias e noites sozinha em casa.

Simone de Oliveira comeu menos e fumou menos. Bebeu muito café.

E sempre um copo de vinho tinto às refeições.

A solidão não a assusta, mas o futuro traz algumas inquietações.

Quando as saudades apertam, e a tristeza se instala, Simone fala com a "Mariazinha", o seu alter ego, e a coisa espanta-se, "aprendi muito com a solidão e com a tristeza", confessa sem carregar nas palavras.

Vai rindo e sorrindo e gargalhando também. A memória não a atraiçoa. A vida foi sempre a perder, mesmo com tudo e o tanto que ganhou. Esta mulher tem 82 anos e uma força que contagia.

Para ouvir: Um dia de cada vez com Simone de Oliveira

Na casa onde vive há 45 anos, "a casa que é um pombal", como gosta de dizer, é o seu mundo. Habituada a sair para trabalhar, não esconde que os dias passaram lentos, mas custou menos do que pensava, "o meu filho Pedro trazia as compras e tratava das roupas", entrava e saía. Com a filha Eduarda, que vive no Luxemburgo, fala todos os dias pelo WhatsApp, com os netos também. E a senhora que faz a limpeza também teve de deixar ir, "mas continuei a pagar-lhe, como é minha obrigação", e ela, Simone, não tem medo da faxina. Limpou, voltou a ler, reviveu passados no ecrã da televisão, seguiu as telenovelas de hoje, séries e filmes. Não tem "abafaretes, nem ataques de nervos", mas muitas saudades de trabalhar.

"Não queremos mendigar, queremos viver", afirma no tom que lhe conhecemos. A voz expressa a preocupação com o futuro da gente que vive do palco e dos espectáculos, "há 62 anos que vivo a recibos verdes, foi sempre assim". "Tenho saudades de trabalhar? Tenho. Vai haver trabalho? Não sei...", apreensiva com as novas regras, Simone de Oliveira suspeita que os teatros que não são subsidiados possam não resistir ao confinamento destes tempos. A fragilidade da vida do artista

É hoje mais dorida e ninguém consegue viver do ar. Para já matará as saudades numa iniciativa de Felipe La Féria para a RTP, "mesmo sem público é bom".

Entretanto, foi ao cabeleireiro, "sempre gostei de me arranjar", já dá a volta ao quarteirão, para mexer as pernas, mas falta-lhe ainda o mar, os amigos e os jantares no Bairro Alto, "as distâncias doem".

Vai trauteando canções, para não esquecer as letras, apesar de até hoje nunca a memória a ter atraiçoado, e revela-nos o porquê de uma luz acesa na mesinha do canto, ao lado do sofá, em plena luz do dia. É um poema dela.

Um dia de cada vez é um programa de Teresa Dias Mendes. Pode ser ouvido na íntegra, de segunda a quinta, depois das 19h00, na antena da TSF e em TSF.PT - Um dia de cada vez

* Nota do Editor: a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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