Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

Confinadamente apaziguado

"Estar em casa é estar no meu paraíso", é com esta simplicidade, que António Bagão Félix, nos fala duma quarentena com "Alma de fé", a adaptação do nome do lugar no Alentejo (Almadafe), onde se refugiou da pandemia. Ali, em Sousel, no Monte das Flores, a casa de campo de há 22 anos, o antigo governante alimenta o fascínio das plantas. Entre 300 oliveiras centenárias e mais de 250 espécies religiosamente catalogadas, nas folhas do Excel, ali, estão as sementes que o fazem germinar.

Todos os dias de manhã, vai visitar a prole, como chega a dizer. A segunda família? pergunto eu.

"É uma relação apaixonada com a Natureza", responde o economista botânico, que agora se debruça também sobre as ervas daninhas, "algumas soberbas", numa confissão pelo estudo e pela fruição que colhe na cidade e no campo. A reforma trouxe-lhe o tempo da proximidade, da relação amiga, deu-lhe tempo para o gozo de "um envelhecimento positivo". A ideia de passatempo, não tem expressão, nem nestes dias em que optou pelo campo. Uma opção, explica, perante a impossibilidade de se relacionar presencialmente com as filhas, as netas e os amigos. Na casa do Alentejo, Bagão Félix tem tudo o resto que não tinha em Lisboa.

Desde logo, o isolamento que lhe permite deixar as paredes da casa e sair, sem medo do vírus, para cuidar das flores e das plantas e das árvores, "esqueço-me de tudo o resto". Um amador que vai saciando a curiosidade do gosto. Perguntem-lhe sobre carros, quantos cavalos, que tipo de direcção, "não quero saber, só sei conduzir". Perguntem-lhe sobre a Natureza, e aí é um gosto ouvi-lo. As árvores que inventaram o Outono, a sua estação preferida, "o despir pudico, a melodia do vagar", a Gingko Biloba, esse fóssil vivo, "que forra o chão do Jardim das Amoreiras a ouro durante o mês de Dezembro", ou "a exuberância de um Jacarandá Mimosa", prestes a explodir trombetas de cores, entre roxos e carmins, nesta altura do ano. Curiosamente inquieto, num jogo de sedução, como faz questão de repetir. Esperando que a curiosidade permaneça sempre criança, até ao dia anterior à morte, " para ter a ansiedade de saber mais".

Estar confinado sem estar, eis o segredo aparente desta relação com a Natureza. O esperar que as plantas lhe falem, exprimindo necessidades e vontades, o sentimento de gratidão, "porque sem elas não tínhamos vida". A dádiva da Mãe - Natureza. Uma paleta de cores e de cuidados. Um namoro que resiste à idade do tempo. Este ano, as férias, ali passadas normalmente, mudam-se para Lisboa, durante o mês de Agosto, "vamos de férias a Lisboa" o seu outro doce lar, lugar de luz e de sombras. A cidade e o campo, as duas metades que se abraçam, embora prefira o campo, citando Miguel Torga, " na cidade sou uma ficção entre as ficções, no campo sou uma criatura entre as criaturas".

Uma planta para estes tempos, peço-lhe. Sem hesitar, responde "a Buganvília, uma planta trepadeira, com ramificações diferentes, em que todas elas dependem umas das outras". Esperando assim que a relação de proximidade possa ser reabilitada, depois da pandemia, "a pureza da relação entre as pessoas".

Um dia de cada vez é um programa de Teresa Dias Mendes. Pode ser ouvido na íntegra, de segunda a quinta, depois das 19h00, na antena da TSF e em TSF.PT - Um dia de cada vez

* Nota do Editor: a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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