Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

Grândola, nos pulmões de uma varanda

Ana Margarida de Carvalho não acredita em almas. Mas consente na escolha das minhas palavras, para falar "das muitas almas" do folhetim literário, Bode Inspiratório. A páginas tantas, Abril. E a elegância de carrapitos desalinhados, como cravos que lhe alongam a liberdade, e perfumam as saudades da escritora que gosta de dançar.

Primeiro eram 20, depois 40, 45, 46. E tem mesmo de parar aqui. 46 escritores e 46 ilustradores, e outros tantos artistas plásticos. Todos ligados numa página de Facebook, o Bode Inspiratório. São vozes e traços que não se deixam confinar, "no momento em que me mandam parar, é quando mais me apetece andar", responde a escritora, que assume a vontade do jornalismo, "volta e meia ressurge em mim a jornalista que fui, mas talvez seja esta a altura em que mais o sinto".

Dá por ela a olhar para os homens do lixo e a pensar na reportagem, ou para os seguranças dos supermercados, ou para os estafetas de take away, os que não estão na linha da frente. O olhar dela não abandonou o ofício. Mesmo que a mágoa perdure, e o eco do adjectivo "dispensável", ao fim de 25 anos dedicados, e pasme-se, premiados até, vá e volte, no correr dos dias. Foi há três anos, que ficou sem emprego, quando o senhor dos recursos humanos da revista Visão lhe paginou a saída, "deixei de ser jornalista à força, foi um processo duro". Vieram mais livros e prémios, o último "O gesto que fazemos para proteger a cabeça", terá uma linha no final da nossa conversa.

De volta ao Bode Inspiratório. A esta hora já foi publicado o capítulo 32. O processo é simples. Cada escritor tem 24 horas para ler o último capítulo, e escrever o seguinte. O mesmo com os ilustradores, que não seguem o rumo das palavras. Deixam-se levar pela contaminação da crise, e do isolamento social. Os artistas plásticos idem. Tudo começa a 25 de Março, data em que é publicado o primeiro capítulo, escrito por Mário de Carvalho, "Raios e Coriscos", aqui se lançaram personagens e suspeições e desafios para os seguintes, "escritores de várias gerações, de vários géneros, abordagens diferentes", explica Ana Margarida de Carvalho, que desta vez não escreve. "Dei a minha vez" , e é ela a editora do projecto, agora já com uma vasta equipa, vídeo, áudio, tradutores, ( já há versões traduzidas para inglês, francês, castelhano, e pelo mundo fora, ou dentro), e uma curadora de arte, "eu criei o monstro, mas agora vou ter de alimentá-lo".

O bicho já tem escala, e um compromisso sério com o leitor. São dias loucos e corridos, afirma a escritora, que se alimenta do entusiasmo dos outros, do trabalho de equipa, que afaga assim as saudades de não ver os pais e nem os filhos. Muitos dos escritores e artistas nem se conhecem, "não é comum que trabalhem em conjunto, mas este contexto tão extraordinário e inverosímil, permitiu criar uma linha narrativa e ficcional que nos liga", explica com o entusiasmo de uma voz que não prescinde da alegria, esse modo de estar e de fazer "que tem um grande potencial de resistência e de luta".

O último capítulo é publicado a 5 de Maio, e será Luísa Costa Gomes a escrever o Fim. E depois?

Depois, "se ainda existirem livros e editoras", responde, "um livro, uma exposição, e um catálogo", mas a primeira coisa "é uma grande festa para nos conhecermos".

No próximo sábado, dia 25 de Abril, talvez a possamos ouvir a cantar a Grândola à varanda, num coro da Primavera, onde não faltarão os dois cães, Vicenta e Cãoboio. Este ano, não poderá descer a Avenida da Liberdade, como sempre, "apesar de não gostar de ajuntamentos", mas sempre assim comemorou a data, e não consegue perceber a polémica que rodeia as comemorações. "Provoca-me arrepio" e desprezo pelo que considera ser "um aproveitamento necrófago", em circunstâncias tão duras para todos. Mais uma razão para celebrar Abril . Enquanto não pode voltar a dançar ao final do dia. Exercício físico pela manhã, e dança ao final da tarde, o esforço e a elegância dos gestos que lhe protegem a cabeça. Isso, e algumas "ideias estúpidas" que vai tendo. Como o nome de uma futura editora : "Pandemicovídeo", e ri-se. Com alegria.

Um dia de cada vez é um programa de Teresa Dias Mendes. Pode ser ouvido na íntegra, de segunda a quinta, depois das 19h00, na antena da TSF e em TSF.PT - Um dia de cada vez

* Nota do Editor: a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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