Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

Nas cordas da pandemia

"O que há de ser a nossa vida", interroga-se Daniel Pereira Cristo, um músico de Braga.

Estaria a regressar de São Francisco, na costa oeste dos Estado Unidos, se o vírus não lhe tivesse trocado as voltas. Mas foi só um dos muitos espectáculos que foram cancelados, "até ao final do ano está tudo cancelado", afirma resignado enquanto lembra a agenda que passaria pelas festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo , pelo São João de Braga, onde revisitaria as músicas mais antigas das festas populares, por Guimarães, no último a dia 25 de Abril, por sinal o dia do aniversário de Daniel Pereira Cristo. Não foi o único a celebrar o aniversário, durante o período de quarentena. O filho mais novo também completou 4 anos, e o mais velho que este ano dá entrada no primeiro ciclo, aprendeu a ler em casa. Também o ensinou a googlar e aos dois, a andar de bicicleta, sem rodinhas. E deram muitos passeios. Vivem hoje a 5 minutos do centro da cidade de Braga, rodeados do ar da montanha, muito perro da Universidade do Minho, " fi-los suar muito", palmilhando as serras e os vales que rodeiam a nova casa. Daniel Pereira Cristo foi escuteiro e preserva os valores "da boa acção e do bem comum", a par com o respeito pela Natureza. Sim, também andaram a catar lixo.

Em casa, continua a tocar, a dedilhar, a produzir, a compor ,e a cantar. Os miúdos lá o ouvem, " de auscultadores ficam meio anestesiados", graceja, revelando que ainda é cedo para os ensinar a tocar, " porque os dedos ainda são pequenos e fininhos". Com esta idade, também ele seguia as voltas do pai, Casimiro Pereira, e o gosto pela música e pela cultura tradicional. É o sr. Casimiro, o grande responsável pelo artista que ele é hoje, " passou para mim e agora vivo disso, da música que me faz feliz. Em 2017 lançou o primeiro álbum, Cavaquinho Cantado, que lhe valeu o Prémio Carlos Paredes, e agora estaria a lançar o segundo . Ouviremos duas músicas que já apresentou online. Um inédito e uma versão de 1979, do álbum Fura-fura de Zeca Afonso, em jeito de tributo ao " músico genial" que ouve desde pequeno: "De não saber o que me espera/ mas quem vencer esta meta/ que diga se a linha é recta..." E ele também não sabe o que o espera.

Para hoje deixou o cavaquinho de lado, e escolhe a viola braguesa. Vai dedilhando e alimentando a paixão e o entusiasmo, " oxalá possamos dar a volta", insiste em dizer. Um optimista céptico, como na música do Jorge Palma, estranhando as regras apertadas que impedem os concertos ao ar livre, quando ao mesmo tempo observa os transportes públicos a abarrotar de gente. Tem saudades do palco, e de suar muito lá em cima. Aos Domingos senta-se e liga a câmara, Trdicotomias , é o nome deste espaço social que as redes propagam , levando os sons dos instrumentos que acompanham a música tradicional portuguesa. Tem vários e explica. As aulas on line são uma opção para afinar o orçamento, " se alguém ouvir e estiver interessado, já sabe", e espera que o segundo álbum ainda possa ver a luz do dia durante este ano. Mesmo sabendo que não é um artista mainstream, mantêm a chama acesa, " é esta a música que me faz feliz" . E pega num ditado popular, para nos dedilhar os últimos acordes da conversa : "Quem tem saúde e liberdade, é tão rico e não o sabe / verdade verdade, é tão fácil de entender/ pois na verdade só não vê quem não quer ver...."

* Nota do Editor: a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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