Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

No refúgio de um louco feliz

A placa com a inscrição há-de dar as boas vindas a quem entre na casa do Mindelo, a moradia em Vila do Conde, onde vive Luís Freitas Lobo.

O comentador desportivo, no seu Planeta do Futebol, é um homem feliz. Lá dentro há salas com nomes de estádios, um mundo de memórias e de emoções guardado em milhares de cassetes VHS e outros tantos DVDs. E posters, e jornais antigos, revistas, obras de autor, como os "jornais" que o próprio escreveu, ainda miúdo, já com o gozo da bola a bailar na ponta dos dedos. E nada seria igual sem as 3 cadelas, que seguem a paixão do dono pelo futebol. Sem tácticas, puro prazer.

"Vivo practicamente com uma bola na cabeça e não consigo ver o futebol a voltar". Luís Freitas Lobo já começou a seguir os jogos da Bundesliga, e não conseguiu sentir nada, está mesmo em crer que ninguém o vai sentir. Falta-lhe a comunhão de emoções entre bancadas e jogadores, fala de outra espécie de futebol, a que renasce da pandemia, aquela a que chama "o futebol in vitro, algo que escapa à normalidade das emoções". Vem o desabafo, a propósito das novas regras, que impedem a presença de público nas bancadas, que proíbem a celebração do golo, "Quanto é que vale um abraço?", pergunta ele, desanimado perante o novo futebol. Se é assim para um comentador, como será para um jogador? Responde, que agora "é meio jogo e meio jogador, é metade de tudo". É estar num jogo como num treino.

Para ouvir: Um dia de cada vez com Luís Freitas Lobo

Fala com a mesma paixão que o fez forçar a sorte de poder ter prazer no trabalho que lhe dá felicidade. Mas a formação em Direito, não lhe dá ânimo para as novas leis do jogo. Sobram críticas até, ou dúvidas, perante as regras que agora passam a permitir 9 suplentes no banco e 5 substituições por jogo, como foi determinado para as dez jornadas que faltam da Liga Portuguesa. Nem mesmo o argumento da condição física, o convence, " se numa pré-época, não se pensa assim, não vejo razão para tal".

Luís Freitas Lobo resiste a mexer em regras que já existem há muitos anos. Fala do respeito pela História, "o futebol é bonito como é como foi criado".

O futebol não é só físico, é resistência, sofrimento, espírito, entrega, "que quase sempre fazem a diferença e fazem ganhar jogos". São os jogadores, os donos da Bola. É nisso que acredita, sacudindo a pressão que pressente nos treinadores que parecem hoje querer mandar no jogo. A bola é caprichosa, não tem arestas, e não podes querer domar a Natureza, mesmo com períodos de descontos.

Em casa, há 3 fiéis amigas. Já foram 6, já foram 5, agora são as 3 cadelas rafeiras que ocupam os lugares na bancada superior, onde assiste aos jogos, "elas não fazem análises tácticas, mas reagem". Está mesmo convencido que as suas cadelas são as que mais vêem futebol em todos o mundo. Carlota, Maria Shakira e Julia Roberts. Um trio de ataque, sem leituras de jogo mas com lugar cativo pela noite dentro. Elas também vão ao estádio, mesmo sem saírem de casa. Old Trafford, é nome dado à sala que guarda o arquivo de cassetes VHS e DVDS, milhares delas, muita fita e finta que preserva religiosamente, desde que começou a gravar jogos nos anos 80.

Há também jornais e revistas, posters, e muitas outras recordações de um mundo que o faz feliz. "O futebol com que sonhei", que é também o título do seu terceiro livro, publicado no final do ano passado. Este Old Trafford fica no sótão, o lugar mais perto do Céu, o tal "refúgio de um louco feliz", paredes meias com La Bombonera, a caixa de bombons onde joga a Argentina, que é o arquivo de papel, preservado em capas.

Aqui, neste sótão, Luís Freitas Lobo passou muitas das horas do confinamento, "descobri que vivo bem sem grande interacção social". Continuou a escrever, manteve todos os sinais vitais, junto das pessoas e dos seres que são mais importantes na sua vida, "eu sou o cão atrás da bola, não sou nada 433". Antes de soar o apito final, haverá toques sobre a família, sobre a infância, sobre o puto que ia para a rua jogar à bola com os amigos até anoitecer. Sobre as desigualdades sociais que a rua já fazia sentir, nos arredores da cidade do Porto.

Luís Freitas Lobo é um miúdo que não quer envelhecer. Que é, aos 50, o mesmo que era aos 12. Que só jogava bem em sonhos, mas que encontrou na palavra, o passe certo da paixão. Planeta do Futebol é o nome do podcast que criou e partilha, "para fugir à jaula das audiências", às recusas de projectos apresentados nos media, ao que diz ser, "a crise editorial de ideias, conceitos e valores", preferindo viver no desafio à realidade, sobrevivendo ao choque com a realidade, porque "não somos todos trogloditas que vivem das audiências, os monstros que agora habitam em cima das nossas camas".

Um comentador desportivo, que se obriga a uma boa preparação mental, "para ficar imune ao lixo tóxico que pode perturbar a tua paixão". Agarra-se a uma frase: "Lembra-te sempre porque é que começaste".

Um dia de cada vez é um programa de Teresa Dias Mendes. Pode ser ouvido na íntegra, de segunda a quinta, depois das 19h00, na antena da TSF e em TSF.PT - Um dia de cada vez

* Nota do Editor: a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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