Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

O desconfinar curioso

Já foi ver o mar e já voltou a sentar-se à mesa de um restaurante. Bate leve, levemente o desconfinar de Carlos Fiolhais. O professor, doutorado em física teórica, costuma dizer que a ciência é apenas o melhor método de conhecimento válido sobre o mundo.

Estamos pois, menos condenados à ignorância. Mas faltam-nos as emoções, a saudável linguagem do corpo. Falta-lhe a " cirandagem", com que espevita a curiosidade dos alunos, " o saber nunca está confinado".

O escritório está forrado a livros, o que ajuda a apurar a acústica do som, que através do skype , liga hoje as duas cidades. Lisboa, a partir do estúdio da TSF, e Coimbra, nos arredores da cidade onde vive e ensina.

Partilhar é a palavra certa, quando falamos de Carlos Fiolhais. Ao longe, escutamos o latido de uma cadela, que num destes dias de confinamento, deu em roer um livro do historiador José Mattoso. Um osso bom de roer, terá pensado o bicho lá de casa, sugiro eu, "éramos dois cães ao mesmo osso", conclui o físico, que é também um contador de histórias e um eterno curioso perante o mundo. Difícil é travar-lhe o raciocínio, segue embalado pelas palavras, pelas dúvidas, sempre que uma certeza se instala. A ciência vai dando respostas, mas logo surge outra dúvida, e assim vamos desconfinado a conversa. Entre a ciência e a vida.

Para ouvir: Um dia de cada vez. Fechar com Carlos Fiolhais

"O tema da incerteza está na ordem do dia, e a ciência não dando certezas, dá segurança e conforto". Com estas palavras, Carlos Fiolhais leva-nos pela mão da descoberta, "sabemos hoje muito mais do que sabíamos ontem, e temos a esperança de que amanhã vamos saber mais ainda".

Não é uma postura arrogante, trata de esclarecer ele, que é leitor e escritor, ele que aprecia todos os outros saberes do mundo. Sobre o vírus, tem falado, para sublinhar o território conquistado pelos cientistas, "genoma, testes, artigos, a comunidade científica em rede global", os novos comunicadores que nos entram pela casa, ajudando a perceber e a dominar as incertezas provocadas pela ausência de um modo eficaz de cura ou sequer de prevenção.

Também ele segue a propagação do vírus, o deve e o haver entre os casos recuperados e o número de vítimas. Os países que abraçam o conhecimento científico e os outros, Estados Unidos e Brasil, que ignoram as recomendações. O cientista estremece, e o professor tem saudades dos seus alunos.

"As aulas são mais difíceis... à distância não é bem a mesma coisa", Carlos Fiolhais confessa as saudades de sentir na pele as emoções de ensinar, as que se exprimem através do corpo, dos afectos, que desafiam o saber e o querer aprender.

O professor que pratica "a cirandagem", tem hoje saudades da sala de aula, de poder sair porta fora com os seus alunos, para andar de um lado para o outro, de praticar a busca do outro". É assim que se diverte a ensinar, que exprime a linguagem da ciência. Palavra puxa palavra. O saber, aparentemente nunca acaba. E deixa uma reflexão: "estamos a aprender coisas sobre o vírus, mas gostava que aprendêssemos mais sobre a humanidade". Entre a generosidade e a solidariedade, numa escala colectiva e global.

O Homem "de coração sábio".

Um dia de cada vez é um programa de Teresa Dias Mendes. Pode ser ouvido na íntegra, de segunda a quinta, depois das 19h00, na antena da TSF e em TSF.PT - Um dia de cada vez

* Nota do Editor: a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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