Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

O guião do sorriso dela

Acorda com a luz dos dias lá fora e o sorriso começa a aquecer nesse instante. A moldar-lhe o rosto, a "contaminar" o ar. O confinamento não tolda a boa disposição de Patrícia Vasconcelos, nem corta a corrente de energia que lhe conduz as rotinas diárias, "o palco é hoje a casa", responde ela com gargalhada sonora e de olho no balde da esfregona. É rapariga para cantar durante as limpezas.

"Nunca pensei ser tão amiga da esfregona", desabafa a mulher das artes, entre pás, vassouras e vassourinhas, o balde é agora a malinha que segura amiúde pela casa, "como quem se prepara para sair". O balde e a esfregona são talvez a terapia de Patrícia Vasconcelos, quando "sinto um pedacinho de stress, é o que me alivia".

Mas ela combate o isolamento social com declarações de amor à vida e às palavras, e com rotinas que até nos fazem uma certa inveja. Pequeno-almoço, "grande e numa mesa bonita", aula de Pilates, tempo para trabalhar ou pensar, a seguir preparar o almoço, e de novo o requinte da mesa, uma jarra com flores acompanha as cores dos frescos e dos pratos que aconchegam a comida, "nem que seja uma simples massa com tomate", depois o regresso ao trabalho e ao final da tarde, "muito importante", um aperitivo que acompanha a conversa sobre o que foi o dia. A seguir começa a preparação do jantar, à luz das velas, com os aromas e os últimos sabores antes de "atacarem um filme".

Assim são mais ou menos ensaiados os dias do clã Vasconcelos. O grupo formado no WhatsApp, organiza ideias e lança desafios. Os filmes são sugeridos pelo pai, o realizador António Pedro Vasconcelos, que vai alinhavando um guião, "para um filme que podemos fazer para a frente".

Como é que se filma um beijo? atira a professora de castings, que se interroga sobre a reinvenção do beijo na tela. Do beijo e do toque, da proximidade entre actores e actrizes.

Diremos que na ficção os beijos ainda não estão proibidos, mas estão! Afinal para contar histórias e dar vida às personagens, é preciso toque e envolvimento, tudo o que a realidade proíbe nestes novos tempos, "anda tudo a readaptar argumentos", e este é um momento para "sermos criativos e resilientes".

Patrícia Vasconcelos prefere olhar para o futuro e pensar que os dias de hoje nos convocam para desafios interessantes. Mulher de energia, não corta a corrente neste período de confinamento e faz da casa um palco, "não quero parecer pateta alegre, mas não tenho o direito de me queixar". Ter um tecto, ter saúde, ter comida na mesa, ter Amor todos os dias ao acordar, é disto que fala para justificar o quanto se sente privilegiada. Mulher de família, de partilha, a mulher que guarda em casa o Sempre em Pé oferecido em criança, resiste à saudade dos abraços, celebrando a lembrança de um aceno, de um telefonema, das palavras que chegam por e-mail.

Há ainda o silêncio, o bom silêncio que permite ouvir os passarinhos a chilrear na copa das árvores, junto ao Jardim das Amoreiras, onde continua a ir todas as manhãs, com a cadela Sopa. E também a mercearia do sr. Zé, que se adaptou rapidamente às novas circunstâncias, e o mercado da Ribeira, onde desce para comprar flores. Patrícia Vasconcelos é uma mulher de bairro, e a vida, ali no bairro, ainda preserva pedaços da vida que era, "com um bocadinho de tudo".

Nas paredes, as palavras do filho e do pai, as molduras com os poemas que um e outro lhe oferecem nas datas mais especiais. Pois hoje, todos os dias serão datas especiais, e ela diz-se pronta para enfrentar o que for que o futuro traga. "We`ll meet again", é a canção que guarda para o fim dos seus espectáculos, o Até já permanente, que guarda com o público E é esta canção, com que os soldados ingleses se despediam das famílias antes de partir para a guerra, é esta a melodia que nos fica das palavras de Patrícia Vasconcelos .
Haveremos de voltar a ver-nos.

Um dia de cada vez é um programa de Teresa Dias Mendes. Pode ser ouvido na íntegra, de segunda a quinta, depois das 19h00, na antena da TSF e em TSF.PT - Um dia de cada vez

* Nota do Editor: a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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