Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

"O mundo não acaba assim, caraças..."

"O mundo não acaba assim, caraças! Ou se calhar acaba. A gente sabe lá...". Ivo Canelas a pensar alto à janela lá de casa, numa rua de Lisboa. O actor reflecte sobre os dias que se desconfinam ainda ameaçados pelo vírus e pelo medo. Mas já amanhã, sexta-feira, ele vai fazer xixi ao mar.

Quando a pandemia começou a sobrevoar este nosso mundo, Ivo Canelas viajava pela Nova Zelândia, com o pai e o irmão. Um mês e tal de viagem, montados em bicicletas, sem pouso, sempre ao ar livre. Um alento e uma reserva de oxigénio para o que haveria de vir. Um balão de oxigénio nestes dias tão confinados às paredes de uma casa. O actor, mexido e irrequieto, confessa que tem também um lado "bicho-do-mato", mais caseiro, "consigo ficar na toca entretido". Mas estas são circunstâncias inesperadas, delicadas, "temos de respirar 28 vezes para não nos deixarmos levar pelo medo". Mesmo ele, habituado a ter paragens profissionais de algum tempo, mesmo ele que tem um pé-de-meia, "posso estar parado 1 mês ou 2 , sem entrar em pânico", mesmo ele interroga-se e pressente que desta vez, "estamos todos em sarilhos ao mesmo tempo".

Sem vírus, Ivo Canelas andaria a partilhar o monólogo Todas as Coisa Maravilhosas, por alguns países de língua oficial portuguesa. Já teria entretanto passado por outras cidades portuguesas. O texto que aborda temas como o suicídio, a depressão, a comunicação e a sobrevivência, parece talhado para a partilha que se tornou urgente nestes dias.

Será outro actor, outra abordagem a que podemos ver ou revisitar, lá para Setembro ou Outubro, como conta poder fazer? Responde que não, "mas talvez se vá um bocadinho mais fundo", lembrando que a ideia de um planeta sustentável, que é mencionada no texto, essa ideia é hoje, talvez mais pertinente ainda, ou seja, "este problema que vivemos não pode minimizar os outros que já existiam, a redução da poluição não resulta de uma política global, é consequência de uma catástrofe. Temos e usar luvas, mas não as podemos deitar para o chão. Não podemos romantizar".

Sobre as máscaras, essa pele que um actor veste e despe amiúde, ao dar vida às personagens, Ivo Canelas não crê que ajudem a superar os desafios de agora, "porque estamos todos a tentar compreender-nos sabendo que não é fácil". Sobre as máscaras, que nos tapam nariz e boca, que nos protegem da ameaça, "há qualquer coisa de misterioso no tapar, qualquer coisa de libertador, é como viver numa cidade gigante, onde ninguém nos conhece".

Muitas vezes, muitos dias vai para a janela de câmara fotográfica na mão (uma das suas paixões), à espera do instante que o faz disparar o botão, à espera da sorte, mas não tem acontecido muito. "As ruas vazias interessam-me menos, preciso de gente, de movimento". Nem os pássaros que se ouvem durante a gravação, vizinhos da árvore gigante que vê da janela, nem eles lhe dão asas para esse bater de asas que é o nosso olhar sobre o mundo que nos rodeia. E nesta altura sobra entorpecimento e choque, ainda uma certa anestesia colectiva, que é própria do momento imprevisível que se instalou.

A avó de Ivo Canelas faz 99 anos em Junho. Recorda os sonhos de menino em que "fantasiava sobre a morte dela", a noção de finitude que o persegue desde então, e que hoje o leva a querer estar mais, a aproveitar cada dia. Conta-nos que já a levaram ao cabeleireiro, "embrulhada em máscaras e luvas", e que só não foi ainda à missa, para a confissão que lhe impacienta o espírito. Pensa assim, "se um tipo novo, acha que está a perder meses de vida, como é para um mais velho? Fogo...".

É preciso verbalizar o medo, "pensar no medo é uma coisa, verbalizá-lo é essencial", reflecte a pretexto do poema de Alexandre O'Neill que partilhou no Facebook há poucos dias, O Poema Pouco Original do Medo, especial e misterioso: "só de pensar no medo fico com medo/e é isso que o medo quer".

Ao longo da vida, Ivo Canelas foi aprendendo que o medo diminui se o deitarmos cá para fora, "agora temos de conversar e depois abraçarmo-nos e ficar calados, que também é bom. O mundo não acaba assim, caraças!"

Um dia de cada vez é um programa de Teresa Dias Mendes. Pode ser ouvido na íntegra, de segunda a quinta, depois das 19h00, na antena da TSF e em TSF.PT - Um dia de cada vez

* Nota do Editor: a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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