Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

"Os dias eufóricos da rádio"

O dia 1 está quase apagado na memória dele. Nítido é o outro primeiro dia, anterior, o dia em que entra no edifício da rádio pela primeira vez (ali ao lado da cervejaria TANTAN, onde comia amendoins e se bebiam as primeiras minis), para fazer o programa do jornal de parede do liceu de Benguela, "Vento Novo". O miúdo a quem já sopravam a alcunha do Crónicas (ele explica) haveria de nos soprar muitos ventos pela janela da rádio, 50 anos de ventos, na voz inconfundível do jornalista Fernando Alves.

A magia começa no parapeito duma janela, a ver as mãos dos sonoplastas a fazer palavras de sons.

Nesse outro dia, o dia 1 de Julho de 1970, apresentou discos pedidos. Não se lembra de nenhum. A fita tem de ser puxada atrás, para percebermos o encanto e o espanto dele com a telefonia. Mas no dia 1 de Julho do ano de 1970, tinha ainda 15 anos, o Crónicas começou a ganhar salário, a ter horário, e tarefas para cumprir. Entrou para a tribo, na rádio Clube de Benguela.

Até hoje são 18262.500 dias, a acreditar na soma feita pela máquina de conversão do Google, tantos números quantas as letras do nome Fernando, e são os 50 anos que nos levam à conversa, contaminada, mas pouco, pela pandemia que vivemos. A não ser pela "gratidão", que deixa no ar, à direcção interina da TSF, e pela "crueldade" do lay-off que nos tocou. Palavras de uma certa desordem, como são as palavras de que ele mais gosta.

"A rádio é uma casa de onde as palavras se fazem ao vento", e assim, com imagens como esta, Fernando Alves, vai namorando a ideia da ligação entre as coisas. Podemos ver a casa, e sentir o vento, mesmo de olhos fechados, como no cinema. Diz o ditado que quem semeia ventos, colhe tempestades. Fernando Alves já teve as suas tempestades: "Hoje sou muito contido nos ventos que sopro, sou mais de brisas suaves, de soltar os ventos, mas conseguindo domá-los". O desassossego teima e alguma desarrumação também, "se debaixo de uma grande batuta". A rádio é o lugar de absoluta felicidade, "a minha maneira de brincar a sério". O vento, que sopra da voz e das palavras dele, leva-me a pedir-lhe que faça o vento com a boca", que embale o texto de António Cabrita, com ilustrações de Ivone Ralha, O Pastor de Ventos. É assim: "Conta-se que quando se nasce nos é atribuído um vento, um vento de que a pessoa deve cuidar... todos os dias deve soltar-se." O texto continua, e havemos de soltar o riso, com a brincadeira assobiada no estúdio da rádio.

Ele é isto e é disto, mas é também o catador, o roubador, o que faz bordados com a realidade. O que sai à rua, para ser surpreendido. Há plins e plins, "o trabalho vai aboborando na cabeça, depois tenho de passar a limpo. Dá-me uma ideia de arrumação, como se fazia antigamente na escola. Dá-me a noção do tempo, a cadência, o batimento, a harmonia do texto, o que casa." E quando casa, quando tece os fios, quando se entrelaçam, "tens o dia ganho". Sinais é o combate mais longo que trava na antena da TSF, mas já esteve ao Postigo da Noite, palmilhou Os Dias Andados, viajou pelo país e algum mundo, sussurrou por um Búzio Ardente, percorreu Rotas, subiu montanhas e serras, encontrou Portugueses Excelentíssimos, Terra a Terra ou através da Rede Social, há sempre uma descoberta, A Espantosa Realidade das Coisas. TSF, RDP, Emissora Nacional de Angola, Rádio Comercial de Angola, Rádio Clube de Benguela. As notícias com... e as histórias sempre.

"É ainda a paixão da rádio que me move, mas muitas vezes não é correspondida. Os dias estão feios", conclui sobre a ideia que passa num dos slogans da rádio, o primeiro, estou em crer, desencantado por ele. Fernando Alves, o que nunca quis ser jornalista, "vê lá tu", e que sempre quis ser um homem da rádio.

Por tantas serem as vezes e ocasiões em que já partilhou tudo o que rádio lhe deu, pergunto, neste dia, o que é que a rádio já não lhe dá. "Não espero que a rádio me dê grandes coisas", responde ao avesso da coisa, "basta que ela seja suporte para o que ponho ao lume e que isso toque pessoas que eu estimo lá fora, umas que conheço, outras que nunca conhecerei".

Mas vêm-lhe à memória as ideias que surgiam à mesa, a preguiça de almoços que terminavam ao jantar, o tempo em que havia equipas que burilavam histórias e faziam acontecer, o desenho nas toalhas de papel, as noitadas a montar um magazine, "os dias eufóricos da rádio".

Em Setembro, vamos conhecer os 50 poemas da vida dele. Não está fácil a escolha e o porquê da escolha. Há tempo ainda para sabermos mais sobre o livro proposto por José da Cruz Santos, o editor do Porto que mais livros de poesia publicou em Portugal. 50 anos de rádio, 50 poemas que se entrelaçam no fio dos ventos da palavra dita por Fernando Alves.

"Gostava de morrer fulminado aos 80 e tal anos, num estúdio de rádio." Em directo, acrescento eu, que já o ouvi a aboborar esse final. Amada Rádio.

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