Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

Palavras com sabor a Capicua

Tarde quente em Lisboa. Um banco de jardim. A sombra de uma árvore. Um gelado lá mais para diante. Capicua escolheu o Jardim da Estrela, em Lisboa, para desafiar o nosso desconfinamento. Está prestes a subir ao palco: "Não é um concerto normal, mas é bom na mesma". Entretanto, arrumou muitas gavetas.

Este ano não lançou os balões de São João, como é hábito, durante os festejos que tomam conta da cidade do Porto. Este ano não houve festa e a rapper até está por Lisboa, para participar num programa da RTP. Será o tão desejado regresso ao palco, depois do último álbum Madrepérola, que foi lançado na véspera da pandemia. Um balão cheio de letras e de rimas, de convidados e de sol.

Um disco feliz, como ela própria já disse, que faz mexer e dançar. Dancemos então num banco de jardim ao sabor das palavras dela. Ana Matos Fernandes, 38 anos. A socióloga que ainda vive da música, a mulher que lança o perfume de novos projectos, a mãe do pequeno Romeu.

Sentir empatia, calçar os sapatos dos outros, sonhar, "sem arte e sem cultura, o exercício da quarentena teria sido mais difícil. Sem livros, sem discos, sem filmes, sem fotografias, teria sido como estar numa solitária". A artista fala por ela e por todos, reflecte sobre os meses muito duros que se instalaram, "há muita gente mal". Quer o reconhecimento devido a quem move a economia do país, cria postos de trabalho, promove a identidade cultural. Pede consciência pública. Fala da massa crítica que se vai perder, dos apoios "selectivos" que não chegam para todos, e dos concursos "um pouco insultuosos". As crises já lhe moldaram o jeito mas este vírus é muito mais do que um grão de areia, "é uma pedra". Ainda assim, vinga o lado solar de Capicua.

Em casa, juntou letras e poemas e recortes, coisas soltas para um futuro Caderno ou Livro, como se queira chamar, que há-de querer editar. Organizou álbuns de fotos, arrumou gavetas e comprou um baloiço para o pequeno Romeu, que fez 1 ano em Fevereiro "foi a última festa em família alargada". Pensou na reforma, projectando o regresso à faculdade para estudar Belas Artes e fazer esculturas. Ponderou abrir uma gelataria. Voltou entretanto a Matosinhos, para uma primeira refeição desconfinada, "robalo com arroz de grelos".

E veio-lhe à memória a avó Sofia. A avó materna, que não deixava os netos beber do mesmo copo, ou lamber o mesmo gelado. A avó que viveu o drama da tuberculose e incutia gestos e comportamentos de higiene, moldados pela infecção e pelo contágio. Capicua, garante que sempre lutou para não ser "hipocondríaca ou nojentinha", mas interroga-se hoje se não virá a ser uma avó, como a avó Sofia, contaminada pelos novos hábitos. Ainda que agradeça alguns, "dispenso os 2 beijinhos sociais, e os microfones com sabor a cuspe das salas de ensaio". É mais de abraços, mas pouco de futurologia, "porque isto pode ser rápido ou pode ser um pesadelo". Um ano seria rápido.

Para já o mais importante é mesmo dançar o novo disco no palco. E continuar a lamber gelados. Cada um com o seu cone e com o seu sabor. Na falta de chocolate negro ( o sabor preferido de Ana), escolheu uma bola de morango e tirámos as máscaras: "Já estou a suar do bigode."

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