Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades. Com Teresa Dias Mendes.

A beleza de ver. O médico que conhece os doentes pelos olhos e acredita em milagres

Pai e filha, ambos trabalham para melhorar a "visão" dos outros. António Travassos e Ana Sofia Travassos estão em sintonia "em casa" e no trabalho, com ou sem ajuda divina.

Conhece os doentes todos. Pelos olhos. António Travassos, um dos mais conceituados oftalmologistas mundiais, também acredita em milagres "trabalhando para os fazer".

- Como é que conversa com Deus?

- " Ó pá, ajuda, que eu já fiz o que posso".

E ele ajuda, assegura o oftalmologista que atende mais de 50 doentes por dia. No Centro Cirúrgico de Coimbra, que fundou em 1999, a lista do número de pacientes continua a aumentar. Chegam de todo o país, e de tantas outras partes do mundo.

É Ana Sofia Travassos, a filha mais velha, que nos acena com uma "segunda presença, no bloco operatório. Acontecem milagres". É para ela, que António encaminha os doentes, quando não lhes consegue explicar o tratamento que se propõe fazer. Tem mais jeito para falar com eles. Sofia confirma "gosto de namorar com eles", gosta de transformar a linguagem técnica em palavras que se entendam. Ele é mais reservado.

António Travassos podia ter sido engenheiro mecânico. Era o miúdo que desmontava e consertava os relógios da família. Mais tarde, foram os motores que lhe aguçaram a curiosidade, passava horas na oficina do mecânico, em Portalegre, onde nasceu, para seguir as reparações dos carros. Depois começou a operar os animais da quinta. A Medicina foi-lhe diagnosticada nos cursos de orientação profissional. A Oftalmologia ficou decidida, quando um professor de química fisiológica, apresentou uma fórmula no quadro, e anunciou: "quem não quiser saber disto, vai para Oftalmologia". E ele foi. Explica hoje, que não quis empinar a fórmula, e que não gostou da atitude provocatória do professor, "a visão é o sentido que mais usamos".

Confessa o gosto por problemas agudos. Projeta cada operação, como uma obra de engenharia "é física, é matemática pura". Para restaurar a obra de arte, que é o olho humano, " se um doente me chega com 5% de visão, eu não vou dar-lhe 6%. Luto para preservar os 5". Luta para fazer o melhor. No bloco, entra sempre confiante, sempre convicto que vão conseguir.Nas consultas, já se enterrou na cadeira com a confiança que os doentes depositam nele. " Uma confiança cega?", " Tanto, que assusta".

Sete milhões de imagens. Todas as intervenções são filmadas e documentadas. No início do próximo ano, a exposição - VISÕES, o interior do olho humano- viaja para uma cidade europeia. São as fotografias do interior do olho humano. Percursos que preservam, para memória futura. A beleza de ver.

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