Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quinta-feira, depois das 19h00. Repete à sexta-feira, à 01h00 e domingo depois das 14h00. Com Teresa Dias Mendes

A paixão da rádio

A 29 de fevereiro de 1988, ela foi a segunda voz da primeira emissão da rádio. Poucos dias depois de a TSF celebrar 32 anos, Maria Flor Pedroso volta à sua casa. É a convidada do programa Uma Questão de ADN.

A 29 de fevereiro de 1988, ela foi a segunda voz da primeira emissão da rádio.

Emídio Rangel dizia TSF e ela hoje repete: "Vamos lá ver se eu consigo dizer da mesma forma: a paixão da rádio."

Poucos dias depois de a TSF celebrar 32 anos, "uma felicíssima coincidência", Maria Flor Pedroso volta à sua casa, "a minha escola". Estaria na rádio, mas sem TSF não sabe se seria jornalista. A viagem tem a companhia de Manuel Pedroso Marques, o "tio Manel".

Em abril de 1974, com a revolução a dar os primeiros passos, a pequena Flor ouvia a mãe dizer: "Se isto for para o lado bom, o tio Manel pode voltar."

O tio Manel era uma figura distante para miúda, a mais nova de três irmãos, que o tinha conhecido com poucos meses de idade. Agora, já com 10 anos, ela vai finalmente conhecer o tio. Treze anos de exílio. Manuel Pedroso Marques estava no Brasil. Primeiro França, depois Brasil. Teve de deixar o país depois de participar no assalto ao quartel de Beja, na madrugada de 31 de dezembro para 1 de janeiro de 1961. Só não foi preso por ter sido ele a conduzir Varela Gomes, atingido por um tiro, ao hospital. É fundador do Partido Socialista, foi editor e gestor. No regresso ao país, o coronel assume as funções de Presidente do Conselho de Administração da RTP, mais tarde do Diário de Notícias e da Capital e ainda ocupa as mesmas funções na agência Lusa.

Vai falar-nos sobre o mandato da sobrinha na direção de informação da RTP. "Surpreendeu-me mais que tivesse aceitado do que ter colocado o lugar à disposição", afirma. Destaca-lhe a postura independente e uma certa autonomia, "que podia dar problemas".

Maria Flor Pedroso entra para a radio Comercial em 1984, tinha 18 anos. É lá que aprende algo que nunca mais esqueceu na vida, na sequência da leitura de um poema de Lorca. Eis o diálogo, mais palavra, menos palavra, com Pedro Castelo:

- A Flor lê extraordinariamente bem poesia?

- Bem, extraordinariamente não, mas... - responde-lhe, confessando ser aos 18 bastante mais arrogante do que agora.

- Então, se não lê extraordinariamente bem, não leia. Porque podia ser um momento extraordinário de rádio, senão é uma "seca".

A lição aprendida ali foi a de encontramos, neste ofício da rádio, aquilo que nos distingue. Que nos faz chegar ao ouvido de quem nos escuta. Mais tarde passa pela RFM e a 17 de abril de 1987 entra para o curso da TSF. Já sabia então que o caminho dela tinha o ar da rádio, mas pressentia que lhe faltavam os conhecimentos técnicos. Adelino Gomes, formador, Carlos Andrade, o primeiro editor, e Francisco Sena Santos são três dos nomes que distingue como essenciais na sua formação. A par com o "rasgo" de Emídio Rangel. Foi ele quem a obrigou a reportar tudo e mais alguma coisa, a editar, a produzir, antes de a deixar voar no jornalismo político "que insistentemente pedia para fazer". Sabe de cor essa primeira reportagem onde, "estagiária", ousou perguntar a Álvaro Cunhal "e o senhor critica o quê? ". "Eu também sou crítico", respondeu o líder comunista, sem saber que ia rodar por largas semanas com essa frase num dos spots de promoção da TSF.

Fundadora da TSF, Maria Flor Pedroso, muda-se em 1997 para a RDP - Antena 1, onde trabalha como repórter parlamentar e editora de política a partir de 2003. É para a casa da rádio que voltará em breve, depois de uma pausa e de ter sido a primeira mulher a ser diretora de informação da RTP, cargo que ocupou durante um ano e três meses. A história é pública e conhecida.

Hoje cruzamos a história da sobrinha com a história do tio. Que se cruza com a história de proximidade entre Maria Flor Pedroso e António Costa, primeiro- ministro. Manuel Pedroso Marques é casado com a jornalista Maria Antónia Palla, mãe de António Costa, com quem vive há mais de 40 anos.

E lá se vai a teoria dos primos. Manuel Pedroso Marques, coronel na reserva, é o irmão mais novo do pai de Maria Flor, falecido num acidente de automóvel, quando ela tinha quatro anos e ele estava exilado no Brasil. É uma cicatriz que ainda lhe tolhe as palavras quando pergunto como se chora a morte de um irmão à distancia. A ditadura deixa marcas. E um pequeno busto de Salazar, que se mantém na família, em casa de Maria Flor Pedroso. Foi a peça, e que peça, que a jornalista quis trazer da casa dos avós paternos e que mantém num recanto, voltado para a parede "para mostrar a sobrinhos e netos que aquele senhor vai ficar de castigo para o resto da vida".

Uma Questão de ADN é um programa de Teresa Dias Mendes, com cuidado técnico de José Manuel Cabo. Passa esta quinta feira, depois das 19h00, repete à 01h00 e domingo, a seguir às 14h00. Pode ouvir a versão integral em podcast e em tsf.pt.

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