Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quarta-feira, depois das 13h00. Repete ao domingo, após as 14h00. Com Teresa Dias Mendes

As missões de Gustavo Carona

A primeira missão foi aos 28 anos, em Moçambique, e não parou mais. Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Afeganistão, Síria, Iémen, por aí fora... 13 missões humanitárias, e a pandemia, que no último ano o confrontou com a missão que descreve como a mais difícil da sua vida. O médico intensivista e a mãe, professora reformada partilham o diário dos seus dias, marcados por vários combates e muitas lágrimas. Algumas são boas e bonitas, como a gardénia que acaba de crescer no jardim de Rosário Carona. Mãe e filho. Uma Questão de ADN.

"A mesma intensidade emotiva, em semanas. Impotência, frustração, cansaço extremo. Não é suposto ser assim. Isto destrói as pessoas", um médico na corda bamba da pandemia, é assim que Gustavo Carona descreve o último ano, entre a casa e o hospital de Matosinhos, onde é médico intensivista.

Habituado a decidir em minutos ou segundos, a vida e a morte em cenários de guerra, Gustavo Carona não estava preparado, mesmo assim, para o desgaste emocional provocado pelo vírus.

Sozinho em casa chorou muitas vezes, sem abdicar de regatear o comportamento devido a cada um de nós. O livro Diário de um Médico no combate à pandemia, editado pela Oficina do Livro, ajuda a perceber todas as dores, profissionais e pessoais. A missão continua, revertendo os direitos de autor para Os Médicos Sem Fronteiras e para a Associação Saber Compreender. E aumentam as saudades de viajar, retomar os combates humanitários, quem sabe viver fora de Portugal, e voltar ao Iémen " o lugar mais bonito do mundo".

Comida e roupa lavada. Nos meses mais duros dos confinamentos, era este o contacto entre mãe e filho.

Rosário Carona deixava-lhe os mantimentos à porta, pressentindo o sofrimento do filho, e sofrendo também ela, com o isolamento de Gustavo: "Basta-me olhar, conheço-o muito bem. Limito-me a estar e a tentar suavizar uma coisa que eu sei que está a ser muito, muito difícil".

A primeira vez que puderam estar juntos, no último verão, foram pela costa vicentina, quase sem falar. Gustavo Carona fazia-se ao mar na prancha, Rosário ficava a ler e a contemplar, "a pastar", como nos chega a dizer. É ela que ajuda a decifrar o despertar da medicina no jovem atleta que chegou a sonhar que um dia seria campeão de bodyboard.

Um acidente no mar travou essa viagem, mas Gustavo seguiu outro caminho. De médico aos Médicos sem Fronteiras é uma outra história.

"Lembrarmo-nos do primeiro dia, sermos fiéis e continuar", as palavras são desfiadas em jeito de promessa.

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