Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quarta-feira, depois das 13h00. Repete ao domingo, após as 14h00. Com Teresa Dias Mendes

Gaspar, Sebastião e Diogo. O trio Varela

Um agarra-se às cordas com alma de fadista, mas disposto a enfeitiçar-nos com as outras dimensões da voz da guitarra portuguesa, é o benjamim Gaspar Varela, o tal que começou a tocar para acompanhar a bisavó, Celeste Rodrigues, e já correu o mundo em tournée com Madonna. Tem 18 anos.

O outro, Sebastião Varela, é o irmão mais velho que também abraça a música, e o projeto mais recente "Expresso Transatlântico", com o irmão Gaspar e o amigo Rafael Matos explora paisagens sonoras que nos fazem vadiar. Tem no cinema a primeira paixão, venceu no ano passado o Prémio Shophia, da Academia Portuguesa de Cinema, para melhor trailer, com Zé Pedro Rock n Roll. o documentário assinado pelo pai, Diogo Varela Silva, realizador de cinema, ator e pai " muito orgulhoso" dos seus dois rapazes. Pai e manager.

"É só preciso paixão, eu toco por paixão", dedilha a voz de Gaspar quando tentamos perceber o apuro a que se obriga o jovem, que é para muitos um prodígio da guitarra portuguesa. Do fado aos sons do mundo, Gaspar Varela acredita que pode mesmo voar embalado pelo vento das cordas de um instrumento que não se esgota no fado" eu sempre gostei muito de fado, mas está na altura de mostrar que a guitarra portuguesa é um instrumento solista". O génio é o eterno Carlos Paredes, mas outros têm feito caminho dando à guitarra, o lugar que ele também procura alcançar, em cada projeto. Afinal, " na música não há espaço para mentiras. Muitas vezes fingimos ser uma pessoa que não somos, mas na música e na arte não há espaço para isso. Quando toco, estou a ser sincero, estou a mostrar quem eu sou". De Azul Celeste, a Alfama Texas, temas do seu último projeto com o irmão Sebastião Varela e o amigo Rafael Matos, Gaspar vai encontrando os lugares e as pessoas com quem a música faz todo o sentido. Ele falará da digressão com Madonna, das saudades e das memórias da bisavó Celeste, e do fado que lhe continua a bater no coração.

Sebastião Varela, custou a pegar de ouvido no fado "sempre fui a ovelha negra da família. Tenho um problema, só gosto dos bons" . Evitando os nomes na resposta à pergunta seguinte, também ele soma horas e noites em casas de fado. Divide-se entre a música e o cinema " o que move o meu trabalho é criar. No cinema sou mais introspetivo, na música é ao contrário, há uma partilha". O Sebas, como o trata carinhosamente Gaspar, o Sebas e o Gaspar nunca tinham tocado juntos em público, o que aconteceu em dezembro no Teatro Maria Matos, na apresentação da banda Expresso Transatlântico " estava numa nervoseira gigante antes de entrar em palco. Foi a primeira vez que toquei com o meu irmão". Para breve, o tema preferido dos dois, Quando Neptuno deu à Costa, também terá imagens e poema dito " esta criatura que aqui está, escreve muito bem", aconchega o mais novo, nos videoclips assinados por Sebastião, ele que vai conquistando prémios, apesar do maior dos lamentos " O que é que me faz falta? Faz-me falta um país que dê valor à cultura. Não há espaço, nem dinheiro. Temos de nos reinventar".

Diogo Varela Silva, pai e manager, acentua as dificuldades de quem se move nestes ritmos. Mas o realizador de cinema está hoje aqui para formar um Trio com os seus rapazes " o talento é muito trabalhado, eles tocam muito. A mim dá-me um gozo enorme ver estas coisas acontecer. Fico com um orgulho do tamanho do mundo. Eles arranjaram maneira de trabalhar juntos. Isso é muito giro e deixa-me comovido". Comovido e nervoso. Basta ouvir as histórias contadas pelos filhos e sentir a harmonia e a cumplicidade familiar.

Eles tocam, eles filmam, só não cantam. Essa é uma arte que parece mais talhada para as vozes femininas da família. Mas o fado acontece em hora e meia de conversa:

Perguntem a um fadista

Qual a sua devoção.

Apontou-me uma guitarra

E bateu no coração.

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