"O enigma" de Patrícia Gaspar. A comandante tornada escritora que queria ser detetive

"O enigma das joias contrabandeadas." Sabe quem escreveu este livro? Patrícia Gaspar, a 2.ª Comandante da Proteção Civil. A farda azul está sempre vestida ou à mão de semear e o cabelo apanhado. Quando chega à TSF, é de farda e de rabo-de-cavalo que, mais uma vez, se apresenta. Desta vez, acompanhada pelo pai, o contra-almirante Álvaro Gaspar.

Aos três anos fugiu da escola porque não queria dormir a sesta. Hoje, Patrícia Gaspar continua a dormir pouco - "cinco a seis horas e já fico bem". Passou pela Marinha, pelo Serviço de Informações Estratégicas e de Defesa Militar e está há 19 anos na Proteção Civil. Conhecemos-lhe o rosto no verão de 2017, aquando da tragédia dos incêndios.

"Ninguém quer estar atrás dum púlpito a anunciar a morte de pessoas." Mas foi uma missão dada, tinha de ser cumprida. O pai, o contra-almirante Álvaro Gaspar, assistia aos briefings diários de coração apertado.

Patrícia Gaspar cresceu a ver o mar e a ver o pai partir. Primeiro nos navios da Marinha, mais tarde na esquadrilha de submarinos. Desse tempo, Patrícia recorda os 'maltesers', que ele trazia de Inglaterra - os quais fazia render, porque as esferas de chocolate ainda não se vendiam em Portugal -, ou a primeira aparelhagem, com três andares.

Cresceu a desejar o regresso do pai. A brincar no Alfeite. A pedir para dar uma voltinha de submarino, quando, já mais tarde, o contra-almirante comanda a esquadrilha de submarinos. Cresceu a ouvir contar histórias do mar (as que se podiam contar) e a sonhar.

A primeira vez que Patrícia Gaspar embarcou e navegou, já adulta, já depois de ter terminado o curso de Relações Internacionais, e ter concorrido a uma vaga para oficial da Marinha, vomitou tanto que "rebentou um cinto". E enjoos é com o senhor seu pai - "eram quatro horas na ponte sempre com o balde ao lado". Um cheiro e um sabor para os quais não encontra palavras, mas dos quais não se esquece. E nem os truques de outros velhos "lobos-do-mar" o convenciam (como o de um certo oficial, que colocava o jornal Diário de Notícias, por baixo das calças, junto à barriga. "Nunca percebi porquê, mas ele dizia que ajudava", conta).

Patrícia chega a segundo-tenente na Marinha, onde aprendeu "a camaradagem, o espírito de missão e a estrutura hierárquica, que ainda hoje são mais-valias". Foi a melhor escola, mas logo um outro concurso a desperta para novas aventuras.

Entra no Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIEDM) e, aos 25 anos, é a jovem oficial de informações que fala com Xanana Gusmão na prisão de Cipinang. "Foi como estar num filme, fazer parte da História". Aqui descobriu também o bichinho das operações, de "ter a mão na massa".

Quando concorreu para a Proteção Civil, Patrícia Gaspar nem sabia que organismo era este. "Nunca tinha ouvido falar." Começou a estudar, a entusiasmar-se e a gostar. Ficou em segundo lugar, mas a primeira classificada desistiu. Desde então, já lá vão 19 anos.

A farda azul é uma segunda pele, o cabelo anda apanhado, porque é mais prático. Se pudesse andava de calções e de ténis, ou de chinelos de praia -" é o meu outfit perfeito". Gosta de estar confortável. O pai, oficial da Marinha reformado desde agosto de 2010, lança um olhar reprovador. "Às vezes demais". Reprovador mas terno, porque há muitas correntes que passam nos olhares que trocam, na forma como se escutam, nos sorrisos.

Ela é a 'Tati', na casa dos pais, a 'Generala', patente atribuída pelos filhos, ou a 'Lady', como lhe pedem agora os amigos que seja, quando salta para as bancadas e se junta ao grupo de pais que acompanham os jogos de basquetebol dos miúdos. Ela protesta e refila com os árbitros. "Agora menos, estou mais disciplinada." Desde o verão de 2017, o verão que "ninguém queria viver", o verão em que todos os dias nos entrou pela casa dentro, atrás dum púlpito.

Patrícia Gaspar faz 46 anos em setembro. "Já!", suspira, porque não se sente com esta idade. Continua a ter vontade de brincar na praia, de dar mortais na piscina com os miúdos, como os miúdos. "Enquanto puder e conseguir". Ela avisou aos três anos que não gostava de dormir a sesta.

"Uma Questão de ADN", um programa de Teresa Dias Mendes. Para ouvir esta quinta-feira, depois das 19h00, e no domingo, depois das 14h00, na antena da TSF, e em permanência em tsf.pt.

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