Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades. Com Teresa Dias Mendes.

Uma cicatriz pode ser uma assinatura

O cirurgião cardíaco Manuel Antunes acredita que sim, mas é preciso treinar. A técnica e a arte. E este médico já operou mais de 35 mil corações.

Aos 70 anos, sabe pela primeira vez o que é ter uma lista de espera. Dá consultas num dos hospitais privados de Coimbra. No início, era uma vez por semana. Agora já são duas, há dezenas de doentes que aguardam para serem observados pelo Dr. Manuel Antunes.

Em julho de 2018, fez a aula de jubilação por cumprir 70 anos e ser forçado a deixar o Serviço Nacional de Saúde - e uma parte do coração - no Centro de Cirurgia Cardiotorácica que fundou e dirigiu, em Coimbra. Trinta anos de serviço em exclusividade: "Não posso ter saudades, senão fico infeliz." E Manuel Antunes não é homem de ficar preso à memória, logo ele que nasceu na aldeia com esse nome, no distrito de Leiria.

Saiu de Memória aos 5 anos. Foi para Maputo, onde o pai, motorista de pesados, procurou uma vida melhor. Acabou por ser o primeiro médico da família. O primeiro licenciado.

Tem três filhos, duas raparigas e um rapaz. Miguel Antunes, o mais novo, de 36 anos, partilha com o pai o gosto por mexer nas coisas "coca-bichinhos". Desde pequeno que, aos fins de semana, acompanhava o pai na horta, ou ajudava a mudar o óleo ao carro, ou a fazer furos na parede, ou a arranjar torneiras. "Passava-lhe as ferramentas como quem lhe dava o bisturi", porque o pai salvava vidas.

Miguel vive no mundo da informática. Já desmontava computadores em miúdo, com peças a sobrarem e vírus que se instalavam sem saber como ou porquê. Ainda não havia internet. Hoje, é um dos sócios da empresa Red Light Software.

É numa das salas do n.º 2 do Largo da Sota, em Coimbra, que gravamos esta conversa. Entre máquinas e muita fruta. Um cesto apinhado de bananas, maças, pêras e uma caixa de amêndoas. Faz sentido, porque a empresa de Miguel está voltada para as aplicações na área da saúde, e calha bem porque o pai é viciado em fruta. "Come 1,5 quilos por dia" e mete uma banana ao bolso antes de voltar para as consultas.

"O coração palpita que nem uma batata frita", exclama o médico, para nos aguçar o apetite para a conversa. Falamos de saudades, de ausências, de cicatrizes, de emoções. Suturamos o tempo. 45 anos de cirurgia cardiotorácica. Quase meio século e muitos corações.

Manuel promete um cruzeiro com toda a família. Mulher, filhos e netos. Há um mês esteve com Miguel na sala de partos. Assistiu ao nascimento de todos os cinco netos. É médico e avô! Já o imaginamos com a pequenada e a caixa de ferramentas. Ou na horta, a semear alfaces entre os pessegueiros e as laranjeiras. E vai continuar a operar. Com esta dica: "O coração é o símbolo do amor, mas é o cérebro que comanda".

"Uma questão de ADN", passa esta quinta-feira depois das 15h00, repete na madrugada depois da 1h00 e domingo às 14h00.

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