Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quinta-feira, depois das 19h00. Repete à sexta-feira, à 01h00 e domingo depois das 14h00. Com Teresa Dias Mendes

Júlio e Guilherme Machado Vaz: a tribo, ainda e sempre

O psiquiatra " sexólogo" e o arquitecto " que é um tipo encantador ". Pai e filho, num dueto inédito. Eles cantam, eles comem, eles riem muito.

O dia estava cinzento. A chuva ameaçava lá fora, a pedir o tecto acolhedor da casa de Cantelães, na serra da Cabreira, em Vieira do Minho. A casa-refúgio do Júlio, o seu " castelo de Languedoc ", a casa que abraça a Natureza, a casa onde repousam " seus pais", debaixo de uma árvore, anfitriã e sentinela. A casa do Vale, como foi baptizada por Guilherme, desenhada e projectada por Guilherme, a casa que é um refúgio tribal.

O dia estava cinzento. A chuva ameaçava lá fora. E eu, que não conheço a casa de Cantelães, sabia que haveríamos de lá entrar por breves minutos. Folheadas e lidas as páginas do último livro "À ESCUTA DOS AMANTES - Memórias e Labirintos de um Ouvidor", editado em Novembro pela Contraponto, a casa vai abrindo portas para a preguiça. Ou para a conversa.

Pai e filho chegam pontuais. Primeiro o Júlio, logo a seguir o Guilherme. E a cumplicidade desenha-se logo ali. Entre os dois, entre fotografias e testes de voz. Entre risos e palavras nuas. O Amor é...

E é, pois, no aconchego da rádio, neste dia cinzento, com a chuva a ameaçar lá fora, nesta outra casa também familiar para o pai, que vamos ao encontro de um dos dois rapazes do Júlio. O mais velho, Guilherme Machado Vaz, arquitecto e professor, responsável pela recuperação dos edifícios da Real Vinícola, em Matosinhos, hoje morada da Casa da Arquitectura, um projecto que recebeu o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana 2018, na Categoria Social.

Pensou em Medicina, seguindo o trilho paterno, acabou por acreditar no curso de arquitectura, mesmo sem grande gozo a desenhar. Ou jeito, se um certo episódio no final do 1.º ano, o tivesse feito desistir. A história é boa de se ouvir, e Guilherme é um bom contador de estórias. Ele que usava o bilhete de identidade, exibindo o apelido Machado Vaz, ele que era solicitado pelos amigos , empurrado para a beira da miúdas de Psicologia, nos cortejos da Queima das Fitas: "Sempre me aproveitei disso, o melhor que pude, mas muito pouco".

É o pai que espevita a história. O pai, psiquiatra, professor e comunicador. O Dr. Júlio Machado Vaz, que começa a falar de relações, ao microfone da Rádio Nova, em 1989, com o programa O Sexo dos Anjos. E que mais tarde migra para a televisão, com Sexualidades. Júlio Machado Vaz tem 70 anos. Teme o " declínio intelectual". " Se não for isso, é outra coisa qualquer", desabafa Guilherme, enumerando as várias " patologias" do pai, como quem desdramatiza. E desdramatiza. Sempre com um sorriso.

No livro, Júlio Machado Vaz semeia esquecimentos, coisas do quotidiano que o fazem reflectir, que o fazem ter receio de se fechar num mundo em que não reconheça quem o rodeia. A tribo.
A mãe, Maria Clara, morreu há 10 anos, ou " o que restava dela", como escreve. Tinha Alzheimer. O pai, o médico Manuel Vaz, faleceu 10 anos antes. A memória de " seus pais", sem artigo, como escreve e fala sempre, é uma presença constante. Escutamos pai e filho, na cama com a mãe e avó. Guilherme, a rir com ela, enquanto o avô ligava o rádio na TSF, para as notícias, e depois voltava a ressonar. Júlio, a recordar, as descidas "ao fundo do mar", para lhe fazer cócegas nos pés debaixo dos lençóis.

O dia estava cinzento e a chuva ameaçava lá fora. Júlio Machado Vaz e Guilherme Machado Vaz podiam estar à mesa, num restaurante. Outro dos lugares de tertúlia e de prazer. O pai, sem coentros, e com muita resistência passiva, a conhecer sítios novos. Pouco dado a novidades. O filho, amante de novas experiências, que faz das tripas coração, perante os hábitos do pai. Mas a mesa é uma festa, para a tribo. E percebe-se.

A família, o Benfica e os Beatles, eis os pilares da moral humana, que Guilherme confessa ter aprendido com o pai.
O dia está cinzento. A chuva já desabou lá fora, e eles estreiam-se a cantar na rádio.
A música é dos Platters e embala as despedidas do dueto Machado Vaz.

"A sleepy lagoon
A tropical moon , lá lá lá lá lá....."

Uma Questão de ADN é um programa de Teresa Dias Mendes, com sonorização de Joaquim Barbosa, passa esta quinta-feira, depois das 19h00. Repete de madrugada, depois da 01h00 e no domingo a seguir às 14h00.

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