Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quinta-feira, depois das 19h00. Repete à sexta-feira, à 01h00 e domingo depois das 14h00. Com Teresa Dias Mendes

Júlio Resende: "O piano é onde me dou todo"

Júlio Resende, fala devagar. Fala como toca. Curvado sobre as palavras. Segue a cadência que o tio, Monteiro Resende, ensaia nos primeiros acordes da conversa. Depois, desfiam "malhas" e "vaipes", dão-nos notas do passado e do presente.

Pensávamos que tudo tinha começado aos 4 anos, quando o pai de Júlio lhe ofereceu um teclado. Ele já o disse algumas vezes, "o piano continua a ser o brinquedo preferido". Mas não sabíamos que antes de Júlio, já havia o Manuel, o tio Monteiro Resende, obrigado a abandonar a música, com os sons da guerra em Angola, que forçaram o regresso a Portugal, em 1975. Júlio vai lembrar-nos que o "talento exige trabalho, frustração, dor", e que todos temos o nosso talento. Cada um de nós. E que nenhum ou ninguém deveria ser impedido de poder crescer. Naquela época, o tio Manuel era já um baixista, com muitas horas de acordes e música no coração. Ainda hoje, guarda instrumentos mais velhos do que o Júlio. "Deixei de trazer coisas essenciais, para trazer os instrumentos."

Júlio Resende, o pianista, que elege Fernando Pessoa e Vinicius de Moraes como poetas preferidos ou o músico Keith Jarrett como uma referência. Júlio Resende é o pianista que toca com a voz de Amália Rodrigues, que pincela as teclas com as cores da música eletrónica, para um diálogo benigno entre o Homem e a Máquina, que forma a banda Alexander Search, o primeiro heterónimo de Fernando Pessoa, para brincar com a música das palavras. Júlio Resende, o pianista que toca com os olhos fechados porque o "ajuda a ouvir melhor". E qual será a escala do tempo, para um músico, em cima do palco? O tempo voa, também, lá em cima, no palco? O tempo, responde Júlio Resende, é medido pela emoção que se sentiu. "É uma escala emocional." O que nos leva aos palcos de Angola.

"Em 1972, tivemos dois fins de semana de folga", recorda Manuel Monteiro Resende. Os outros 50 foram sempre a abrir, de palco em palco. Ele era o baixista dos CADÊNCIA 7, o grupo formado por amigos que tocava tudo. "Berrávamos rock, depois a velha guarda pedia uma valsa, e nós dávamos na valsa, um tango,...". E até a marcha nupcial que tocaram em muitos casamentos devolve o brilho aos olhos do baixista. Era miúdo e dava por ele colado ao palco, lá na vila (Vila Nova, a 50 quilómetros do Huambo), a ver como é que os mais velhos faziam o som. Como é que afinavam os instrumentos. Primeiro, ganhou uma concertina, mais tarde um acordeão (é um dos instrumentos que guarda), e a viola deu-lhe cordas para sonhar.

Hoje, tocam em casa, brincam. "Devia erguer-se uma estátua ao valor da brincadeira", afirma o músico sobrinho. O músico tio fica a pensar e diz-nos "que os dois brincam a coisas responsáveis". Será que ainda os vamos ver a tocar juntos? "Eu gostava muito", confessa Júlio Resende, Manuel parece menos convencido e até consolado " com as malhas que ensaiam juntos, com os "vaipes" que saem da brincadeira dos dois. Eles são os Cadência 2. E ficamos a saber que Júlio Resende já prepara um álbum de canções. O músico que se dá todo no piano tecla a seguinte frase: "O instrumento é a pessoa, e a pessoa faz música com aquilo que tiver ." É o que temos.

Uma Questão de ADN, um programa de Teresa Dias Mendes, para ouvir esta quinta-feira, depois das 19h, repete depois da 1h00, e aos domingos a seguir às 14h00.

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