Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quinta-feira, depois das 19h00. Repete à sexta-feira, à 01h00 e domingo depois das 14h00. Com Teresa Dias Mendes

O toque e o tempo, "o vírus roubou-nos isso"

Mudou a relação entre médico e doente. E mudou tanto, e tudo e muito mais. Mudou o jeito de nos relacionarmos, e a máscara que agora nos esconde o rosto invoca o saber e aguça a necessidade de ouvir o olhar do outro. O testemunho de Sandra Brás, a médica que acaba de regressar ao hospital de Santa Maria, retomando a coordenação da Unidade Covid.

O sol acentuou-lhe o vinco na cana do nariz, que o uso contínuo da máscara no hospital deixou marcado na pele, "e acho que já não vai sair ", convence-se a médica Sandra Brás. Está preparada para enfrentar o outono, e admite que a segunda vaga do vírus é "praticamente inevitável". Falaremos sobre o que aí vem, os receios e a esperança, as lições de março e as incógnitas dos próximos meses, a vontade de abraçar e a necessidade de cumprir as regras. O que mudou, e o que não se pode perder. Sandra Braz, e Margarida Pó, madrinha e afilhada, podem ter de voltar a almoçar nas escadas do prédio, ou num banco de jardim, à distância. Podem resistir ao toque, mas não desistem de recuperar o tempo. As duas tagarelam muito.

Os doentes reconhecem-na pelos olhos, às vezes pelo " sotaque do Norte", que ela pensava ter já deixado cair. Mudou a relação entre médico e doente. E mudou tanto, e tudo e muito mais. Mudou o jeito de nos relacionarmos, e a máscara que agora nos esconde o rosto invoca o saber e aguça a necessidade de ouvir o olhar do outro. "É preciso parar e dar mais atenção ao outro", concorda Sandra Brás, a médica que acaba de regressar ao hospital de Santa Maria, retomando a coordenação da Unidade Covid. Regressa depois de um período de férias, passado com Margarida Pó, a jovem afilhada, de 16 anos, que é uma das pessoas mais importantes do seu caminho: "Dá uma leveza à minha vida que poucas ou nenhuma pessoa dá." Aprendeu com ela a relativizar o tempo que dedica ao hospital e Margarida responde com admiração e respeito. Muita admiração e todo o respeito: "Sempre que na escola nos pedem para escrever sobre alguém, é sempre sobre a Sandra."

Só não quer ser médica, talvez siga a carreira diplomática

Margarida regressa hoje à escola, "as férias nunca tinham sido tão grandes", desabafa a jovem,que expressa assim o sabor das aulas em casa que marcaram o final do ano lectivo, e que anseia por voltar à comunidade, sem deixar de manifestar alguns receios. "Sabemos que não podemos tirar a máscara, que não podemos beber da mesma garrafa, e sabemos que não nos podemos infectar para proteger o outro, os jovens com quem eu falo têm essa noção e essa preocupação, podemos ter só uma constipação, mas estamos mais preocupados com os outros." Se Margarida foi obrigada a ter aulas em casa, Sandra agradece o trabalho no hospital: "Na minha profissão, não participar activamente não teria corrido bem." No início, fazia o trajecto a pé, e quando cedeu ao cansaço, e foi de autocarro, chegou a sentir-se culpada, "isso passou-me".

"Passaram seis meses e parece que passaram dois anos", desabafa a médica de voz doce e pausada , a voz que lhe molda os gestos e a ponderação. Fala muito com as mãos, entrelaça os dedos, é uma mulher de equipa, e se alguma coisa boa aponta ao vírus é a equipa ser hoje mais equipa: "Falamos mais uns com os outros , comunicamos mais e melhor, e isso eu espero que fique."Já a relação médico-doente está para ela "comprometida", o tempo volta a ser curto para dar atenção ao doente: "Sabemos da doença, mas tratar um doente não é só saber quando começou a tosse e a febre."

Nas consultas, tenta agora dar-lhes a atenção confiscada pelo vírus, mas, no regresso ao trabalho no hospital de Santa Maria, sabe que a esperam tempos de novo exigentes: "Não há problemas de espaço físico mas preocupa-me o cansaço das equipas médicas, e para abrir enfermarias, é preciso pessoal." Sandra Brás não fala apenas de cansaço físico; a estabilidade emocional é decisiva na linha da frente. Teme, pois, a falta de recursos humanos, perante a dimensão do desconhecido que aí vem, "a segunda vaga Covid é praticamente inevitável, e a gripe sazonal, como vai ser?", pergunta a médica de medicina interna, sem mascarar as inquietações.

Deixa ainda um agradecimento à equipa que coordena. "No hospital, posso ser muito exigente, mas tenho muito orgulho na equipa com quem trabalho e quero dizê-lo aqui publicamente." A maior recompensa está no reconhecimento pelo trabalho e na recuperação dos doentes, mas se lhe falarem de recompensa económica, Sandra Brás também não se atrapalha : "Basta pagarem as horas que nós estamos a mais no hospital, se possível."

"Uma Questão de ADN", um programa de Teresa Dias Mendes, com sonorização de Miguel Silva, esta quinta-feira, às 19h00, com repetição à 01h00, e domingo, às 14h00.

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