Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quarta-feira, depois das 13h00. Repete ao domingo, após as 14h00. Com Teresa Dias Mendes

Os sonhos não têm tecto

Conheceram-se na Escola Superior de Teatro e Cinema, e caminham juntos desde então, " still excited ", como na sequela que regressa à Rua das Gaivotas, durante o mês de Julho. Depois de receber o prémio Ageas Teatro Nacional Dona Maria II, que distingue jovens artistas emergentes, Mário Coelho, persiste mergulhado na arte de criar. Um caminho de luz ,sem padrões virtuais, e com a sua lágrima de cristal. Mário Coelho tem 26 anos, Cleo Diára, 33. Os sonhos de uma nova geração.

O teatro salvou-me". A declaração de Mário Coelho é a expressão do seu amor pela cena. Actor, encenador, dramaturgo, e produtor dos seus próprios espectáculos, o jovem de 26 anos caminha seguro, iluminado, cheio de vontade de fazer: " não acredito em bons artistas ou mau artistas, qualquer pessoa que me diga quero trabalhar contigo, é só isso que eu quero. É essa a minha luz " . Mário e Cleo, não nasceram na mesma família, não cresceram juntos, mas quando o sonho os fez chegar à Escola Superior de Teatro e Cinema, não mais se separaram.

Cleo Tavares, agora é Cleo Diára : " estamos a abraçar a mudança", assegura Mário Coelho, enquanto a actriz explica a razão para tal " procurei na minha família e só encontrei Sousas, Silvas e Carvalhos. Queria que o meu nome tivesse o meu lado africano e encontrei Diára, que quer dizer presente."

O presente, é o lugar de todos os dias, o momento, a procura ,a energia,e a liberdade de celebrar cada um como cada qual. O actor também é autor.

Mário Coelho via filmes às escondidas desde pequeno, a primeira vez que ouviu a palavra Conservatório, e perguntou o que era, tinha 8 anos, e soube que assim seria . A cabeça dele já colava imagens, numa vontade de brincar , que compara ao jardim da infância " tudo acontece ali, mas depois crescemos e vamos perdendo o lado puro das brincadeiras de criança". Agora voltou a brincar com plasticina, seduzido pelo infinito do moldar " é assim que eu vejo o teatro como algo que se pode moldar". Cleo Diára modela " sabes que para mim, a brincadeira é mais séria", lembrando que quando ia ao cinema, e a tela abria, já dizia aos amigos " um dia vou estar ali. Mas era um sonho que durava dez segundos , porque eu não sabia como conseguir ou fazer".

Foi no ISCTE, onde estudou finanças, que descobriu o teatro, onde às tantas já só ia para fazer teatro " a vida encarrega-se de nos mostrar o caminho, se eu não tivesse estado ali, deprimida com o curso, não teria chegado aqui". Caminham juntos, de janela aberta , vendo as pessoas que vivem neste mundo. E acreditam que a cultura pode mudar o mundo.

"Com o Mário não preciso de me explicar como mulher negra. É um privilégio", sublinha a atriz quando abordamos a geometria do preconceito . Cor, tamanho e forma .Mário Coelho, conta um episódio " aos 16 anos é muito duro ouvir dizer que tens a coluna torta, problemas na fala e ar pouco masculino". Os dois falam do padrão virtual que impera no sistema, e que alimenta " uma cadeia de abusos e de ódio". Falam dos dias em que apetece desistir, e dos outros em que tudo é bonito, porque se conhecem , porque se dizem sortudos, porque vão colhendo vitórias, porque os sonhos não têm tecto.

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