Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quinta-feira, depois das 19h00. Repete à sexta-feira, à 01h00 e domingo depois das 14h00. Com Teresa Dias Mendes

"Pelo sonho é que vamos." A emergência das vidas de Francisco Ferreira e António Cardoso Ferreira 

Os irmãos Francisco Ferreira, professor e ambientalista na ZERO, e António Cardoso Ferreira, médico reformado, são os convidados deste "Uma Questão de ADN".

São irmãos. A fisionomia pode confundir um com o outro. Francisco Ferreira, engenheiro, professor e investigador, é um dos rostos do ativismo ambiental em Portugal. Começou aos 12 anos. É o mais conhecido. O "professor Chico", como lhe chamam os alunos. E atual presidente da Associação Zero.

António Cardoso Ferreira, já se reformou. O médico de saúde pública escolheu o interior rural para estar mais próximo das pessoas. É um rosto menos familiar, a não ser que perguntemos pelo "Dr. Cardoso", ou "Dr. António", em Aljustrel, Paredes de Coura ou Gouveia.

Os dois usam óculos e pouco cabelo. Quando o mais novo nasceu, estava o outro a sair de casa.

São 19 anos de diferença. Francisco tem 53, António já vai nos 72. Dos quatro irmãos da família Cardoso Ferreira, admitem ser os mais parecidos. Pelos traços físicos também, mas, sobretudo, pela forma de estar na vida. Pelas escolhas. Francisco Ferreira entregou-se às causas ambientais, António Cardoso Ferreira, foi mais pelas causas sociais. "Tenho a certeza de que fui muito influenciado pela rede social do António", admite Francisco Ferreira, referindo-se aos tempos de infância, quando o irmão já estudava Medicina e vinha a casa nas férias e ao fim de semana. "Foi aí que começaram a soar as campainhas."

António Cardoso Ferreira, o médico que gosta muito de poesia, traz para a conversa Sebastião da Gama, "pelo sonho é que vamos", que descobriu através de um professor de Filosofia. "Faça aí um trabalho sobre a opção da morte em Sebastião da Gama", pediu o docente, referindo-se ao poeta da Arrábida, ou poeta da Natureza, como é conhecido. Se espreitarmos a sua obra, subimos à Serra da Arrábida, onde vivia, a serra que lhe inspirou os versos (desde logo, no seu livro de estreia, Serra-Mãe, de 1945), e pressentimos a tragédia pessoal, motivada pela doença que o vitimou precocemente, a tuberculose. Foi uma figura de referência para o futuro médico. Mais tarde, foi a influência de Arnaldo Sampaio - o diretor-geral de Saúde, pai do antigo Presidente da República Jorge Sampaio e do psiquiatra Daniel Sampaio - que, no 4.º ano da faculdade, foi determinante para a escolha da especialidade em saúde pública.

Francisco Ferreira começa por integrar a Liga para a Proteção da Natureza, a primeira associação ecologista do país. Faltava-se às aulas para defender a reserva do estuário do Sado. Mais tarde, com o combate à construção clandestina no Portinho da Arrábida, funda o projeto Setúbal Verde. Quando escolhe o curso de engenharia do ambiente, já sabia que estava a traçar o destino. Um ano depois, em 1985, funda a Quercus, e, em 2015, a Associação Zero. Até hoje, é um rosto e uma voz que todos identificam, quando se fala de alterações climáticas, de emissão de gases de efeito estufa, de desperdício, proteção do ambiente, consumo insustentável,...

A viagem começa em Setúbal, muito antes de Greta Thunberg ter nascido. Francisco Ferreira ainda se lembra das primeiras manifestações, com 12 ou 15 jovens e meia dúzia de cartazes, e hoje, nas greves climáticas estudantis, mantém o entusiasmo, "às vezes, até com um discurso um pouco mais radical, mais solto".

António continua hoje a participar ativamente na vida comunitária, em Mação, onde vive, com a Zé, a mulher, também médica, que o acompanhou por Aljustrel, Mértola, Paredes de Coura e Gouveia. E não esquece a influência dos pais no percurso que trilharam. Um pai "autoritário, como é próprio dos tímidos", ideologicamente conservador, "admirador de Salazar", e uma mãe, decisiva na abertura concedida aos quatro filhos, "um espírito jovem, uma âncora, que chegou a votar em Otelo para as presidenciais". Os dois guinaram para os valores da esquerda, sem esquecer os princípios cristãos.

Gostam de trabalhar em equipa e formam uma boa equipa. Só as novas tecnologias os podem separar. Francisco domina. António evita. E agora pomos os telemóveis no silêncio. Estamos no ar.

"Uma Questão de ADN", um programa de Teresa Dias Mendes, com sonoplastia de Pedro Simões Ribeiro, passa esta quinta-feira, às 15h00. Repete depois da 1h00, e no domingo, a seguir às 14h00.

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