Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quarta-feira, depois das 13h00. Repete ao domingo, após as 14h00. Com Teresa Dias Mendes

Salgueiro Maia, "um abraço bom"

Daniela e Natércia Maia são as convidadas do programa "Uma Questão de ADN", com Teresa Dias Mendes.

"Às vezes quase me esqueço que morreu", o desabafo surge aos primeiros minutos de gravação na casa desenhada por Fernando Salgueiro Maia, nos arredores de Santarém, cidade de onde o capitão saiu , com a sua coluna de homens, marchando sobre Lisboa, a 25 de Abril de 1974. No dia em que o pais conhece o programa das celebrações dos 50 anos da revolução, é aqui, sem pompa nem circunstância, como ele gostaria que fosse, que o vamos encontrar à sombra da memória de duas mulheres. Natércia e Daniela Maia, a mulher que viveu com ele e a neta que nunca o conheceu.

A 3 de Abril, passam 30 anos sobre a sua morte. A 14 estreia o filme Salgueiro Maia " O Implicado", realizado por Sérgio Graciano. Obra do destino, e da pandemia também, o filme acaba por chegar às salas no mês em que o país já vive mais dias de liberdade do que ditadura. Não é um filme sobre o 25 de Abril.

É a história do homem, Fernando Salgueiro Maia, antes e depois da revolução.

Natércia e Daniela ajudaram na pesquisa, a neta chega mesmo a dizer que é neste filme: "que chega ao homem que ali está (apontando para uma fotografia),não vejo o herói que sempre admirei, vejo a pessoa". Daniela Maia, participa no filme, num assomo de cena, 3 segundos, em que abraça o capitão " um abraço bom", o que é dizer pouco, percebe-se, sobre o significado daquele instante na sua vida.

A velha máquina fotográfica de Salgueiro Maia, é hoje um tesouro nas mãos de Daniela. Algumas camisas, um pólo e os óculos ray-ban do avô, são as memórias palpáveis que a jovem guarda no seu quarto. Companhia e cúmplice da avó, Daniela ajuda a soltar o caráter mais reservado de Natércia Maia, avessa a dar a cara e a dar entrevistas " eu gosto de conversar e de falar dele, mas fiz muita coisa por dever, tenho pena por não ter outra atitude, não sei se é timidez, não sei o que é". Mas sabe : " fiquei sozinha com 2 crianças pequenas e com o trabalho e a casa, não me restava muito tempo para outras coisas. E queria fazer tudo como ele". Tudo, era ter a casa num aprumo, como ele gostava, como ele cuidava. Recorda os convívios com os amigos, as cantorias no carro, as férias para o estrangeiro, de tenda, com um casal amigo " tenho saudades de tudo, a cantar e a dançar éramos os maiores". Quando se conheceram, confessa " foi amor à primeira vista".

Um sonhador, que gostava de levar as coisas para a frente. É um bom retrato do homem que encontramos nesta casa, já despojada de muito acervo, doado à Casa da Cidadania, em Castelo de Vide, onde nasceu, inaugurada no ano passado. No primeiro andar, a biblioteca com uma janela larga para o mundo, era o seu sítio preferido " gostava de estar ali, e essa ideia de sonhar era bom que passasse. Sem sonhos não se vai a lado nenhum".

"Na vida , às vezes é preciso desobedecer" dizia ele amiúde, " precisávamos de desobedecer mais um bocadinho" remata Natércia Maia.

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